domingo, 8 de março de 2015




O GRITO DAS PANELAS


Aqui em Campinas

Ninguém bateu panelas

Estão todas cheias

Povo ocupado comendo.

O filho da empregada

Estudando pra prova da faculdade

Ela me ligou do seu celular

E também não ouvi 

Panela nem cabeça vazia 

Fazer barulho por lá.



(Fla Perez)


São Paulo, bairros nobres
Brilham panelas em armários servis
Nada a se reclamar
Em pobres lares da periferia
Lotando pias
Esperam o ouro azul
Pra serem lavadas
Quando o racionamento deixar!


Morumbi, bairro nobre
torcedores de times pobres
Corinthianos e São Paulinos
Galera vibra, panelas gritam

mas nada tem de política

é apenas uma torcida

querendo na outra bater

Um a zero é bom nem ver!

Bairros nobres, edifícios luxuosos
Panelaço no terraço iluminado
Por segundos saíram do sofá
Por que é que vão brigar?
Por comida é que não é
Com certeza a raiva existe
Porque é preciso parar
com a polícia a revelar
os nomes da corrupção...


(Liz Rabello)


Se quiser bater panela...
É um direito todo seu.
É legítimo o seu ato,
Porém não vá cuspir no prato
Em que você comeu.


Bosco da Cruz

Se fosse pra bater panelas,
que fosse antes de estarem sujas.
E a sujeira não é só literal pela falta de água,
é abstrata num espírito de alienação e oportunismo.
Resultado da construção de uma identidade forjada, 
somos como formigas que trabalham
sem a menor consciência do propósito de sua obra.
O conhecer pode libertar, 
mas é certo que seu caminho
entristece os homens.


(Rodrigo Brandão)

A nova classe média
grita da janela de seu apartamento
financiado pela Caixa Econômica Federal,
batucando em suas panelas de teflon
compradas com a linha de crédito
liberada pelo governo esquerdista
que tanto odeiam! 

Hipocrisia, eu quero uma pra viver!

Nély Claudinely​

A REVOLTA DO ALPENDRE
(pequeno estudo para um cordel)

o rico bate panela

pra tirar a presidente
o pobre confia nela
diz que é gente como a gente.
o rico bate panela
acha que a coisa tá feia
o pobre ri da esparrela
pois a panela tá cheia.
o rico tem casserole
quer calar um discurso
o pobre segue seu curso
que seu curso não é mole.
o rico chama o juiz
diz meu deus, que roubalheira
o pobre quer CPIs
foi roubado a vida inteira.
o rico bate no peito
quer fazer um novo pleito
o pobre não bate, não
"jacabô a inleição".
o rico bate na testa
no aconchego do lar
não é que rico não presta
não presta pra protestar.
indignação na panela
o rico foi pra varanda
não se indigna com a favela
mas por ver que o pobre anda.
(marcílio godoi)

(Nely Claudinely)


BATE BATE PANELA QUE EU QUERO VER

Só de pó foram lá 500 quilos
mas ninguém nem ligou, nem quis saber
Junte aí com o Mensalão Mineiro e...
Bate! Bate panela que eu quero ver!
Já ouviu falar em Propinoduto 
no metrô paulistano e não quer crer
Tem também Privataria Tucana
Bate, bate panela que eu quero ver!
Pro rombo na SABESP e pros desvios,
dinheiro pelo ralo a escorrer
Para a seca que flagela São Paulo
Bate, bate panela que eu quero ver!
Pra polícia que mata na favela
sob o olhar complacente do poder
do Estado e também de sua gente
Bate! Bate panela que eu quero ver!
Pro entreguismo do país ao estrangeiro:
fim de feira, quem dá mais, quem vai querer? 
Petrobrax pelo preço de banana
Bate, bate panela que eu quero ver!
Para AQUELE em quem espera salvação
quem, perdendo, não aceitou perder...
Pra seus crimes, nem investigação.
Vai lá, bate panela que eu quero ver!
É legítimo o cargo que ELA tem
É machista ofender por ofender
Sobre esta, nenhuma acusação
Então, bate panela que eu quero ver!
Pra ação seletiva da justiça
aliada a jornal, rádio e TV
- seus dois lados, dois pesos, duas medidas
Bate, bate panela que eu quero ver!
Por um mundo melhor pra todo mundo
quem é capaz de se comprometer?
A quem pede direito, o meu respeito
Bate, bate panela que eu quero ver!
Pra defender a paz e a liberdade
protestar pelo justo, PODE SER
Consciência, razão, fraternidade
Aí, bate panela pra valer!
Panfletário: Socorro Lira 09/03/2015

Nély Claudinely​

Pegue um livro para ler

Em horário nobre de TV

Até bula de remédio
Ainda é melhor
do que ouvir o plimplim 
de um programa do PSDB

(Gedelci Quadros de Oliveira)

"LÂMPADA PARA OS MEUS PÉS É A TUA PALAVRA E LUZ PARA O MEU CAMINHO"






DESCOBRIR A BELEZA DA "DOR" EM SEUS DIVERSOS NÍVEIS
 É UM DOM POÉTICO CAPAZ DE NOS FAZER FELIZ.







quinta-feira, 5 de março de 2015



BUMBUM NÃO É BOLA

Há muitos anos atrás numa sala de primeiro ano, tinha um aluno que todo santo dia dava um pontapé muito bem dado em uma bundinha fofinha da classe. Quando não em pênis. Todos já haviam passado pelo terror exposto. Várias vezes eu o chamei num canto e conversei com ele. Nada, nada o fazia modificar suas atitudes. Uma manhã me deu a louca. Mostrei a parede e disse "Dê um pontapé aqui!" - Como não era bobo, não queria obedecer, até que gritei. Então, bem de leve, encostou o pé na parede. Eu berrei:  “Mais forte! Mais forte!”. Chorou, sentiu a dor e nunca mais deu pontapé em ninguém. Não só a classe passou a ser mais feliz, como ele também, que não mais significava o "pavor" aos demais. Por que todos os meus diálogos não surtiram resultados? Porque existem formas e formas de aprendizagem. Uma é pelo aprender ouvindo e aceitando, outra é convivendo e dialogando e inserindo as experiências alheias. Outra é a própria experiência e o sofrimento que ela produz. Sem  dúvida a melhor é esta última , no entanto suas consequências às vezes são irreversíveis. Há de se cuidar para ficarmos atentos e aprendermos de forma mais simples.


Liz Rabello

quarta-feira, 4 de março de 2015



BUQUÊ  DE  PEDRAS 

Há quem diga que não goste de solidão... Eu gosto... Costumo até dizer que me fecho em meus silêncios porque não estou sozinha... Sou sozinha!  Quer algo melhor do que caminhar com seus pensamentos por uma trilha deserta e observar a fuga da luz? Sentar-se à beira de um lago e encantar-se com um lindo por-do-sol? Caminhar pela orla marítima, durante o entardecer? Recolher conchinhas do mar, pedrinhas coloridas e delas fazer um lindo colar?  Amarrar todas as pedras de nossos pensamentos e delas criar um buquê para ofertar?  Filtrar nossas emoções ao extremo, para lapidar sentimentos que nos fazem sofrer? Esparramar-se em uma cama grande e dormir... Descansar da labuta e esquecer os problemas? Mas... há momentos, não raros, em que o corpo e a mente, como também o coração pede o voo e aí a gente se lembra que leu em algum lugar do passado que  “O ser humano é um pássaro de uma asa só e que é preciso se juntar ao outro para poder voar!” E então procuramos o Amigo, o Amante... E nos precipitamos no horizonte num voo raso ou gigante! E é lindo demais!
Liz Rabello


A NÓS,  MULHERES,  A DIFÍCIL TAREFA DE PLANTAR UM BUQUÊ DE FLORES EM PEDRAS

terça-feira, 3 de março de 2015

UM LINDO TEXTO DE MINHA AMIGA LEDA BOSSI... UMA MENSAGEM PARA O COTIDIANO, COM SENSIBILIDADE, EMOÇÃO, FÉ E MUITO, MUITO CORAÇÃO!


"Monto meu prato no self service. Uns verdinhos, grãos, tiquito de arroz, algo ali que me interessa...e eis que me deparo com o ...ovo cozido, partido ao meio. Pulo uma metade para dentro de meu prato e vou feliz com o achado, saborear tamanho pitéu! Começo a lembrar dos tempos de infância, quando bife não se comprava tão à vontade como hoje em dia, e o costume era comer um belo ovinho frito, gema mole, se espalhando sobre o arroz fresquinho. Salmonella? Nem se imaginava a existência desse perigo!!! Hoje, sei que é proibido pela vigilância sanitária servir um ovo tão inocente assim. E era tão bom!!!!Do ovo mexido, nunca fui muito fã.Mas na Alemanha deparei-me com ovos mexidos sensacionais na intensa cor alaranjada e com sabor digno de custar o equivalente a 12 reais, no sanduba. Nessas circunstâncias de preço, come-se até o último farelinho e lamenta-se por não repetir a porção. Mas no meu prato que já estava pela metade, estava ali o meio ovo, esperando ser degustado e eu o pulverizei com um salzinho tornando-o ainda mais atraente.Tem uma coisa que me toca quando papo um ovo cozido e vai além do paladar: É que volta à minha memória Jesus dizendo: “ Quem de vós, que o filho pede um ovo e você dá um escorpião?” ( Lucas 11). Pronto!!!! É tuuuudo! Penso que hoje seja meio difícil uma criança pedir um ovo. Tem tantas coisa mais atraentes e complicadas para se desfiar os pais... mas enquanto mastigo a plástica clara que se une à esfarelenta gema bem cozida, penso na criança do lugar rústico em que Jesus viveu, naquela aridez, onde certamente um ovo tratava-se ( e deve ser assim também nos dias atuais) de uma pequena preciosidade.Ovo cozido para mim, tem gosto de certeza de que Deus considera de modo ultra elevado as nossas pequenas e infantis petições. Ele sabe melhor que nós mesmos, o que nos convém na jornada da vida.Podemos estender nossas mãos sem medo, que não cairá nelas nem uma cobra, nem um escorpião. Findo o ovo, finda a refeição, sigo meu caminho com passos de criança confiante nos desígnios do Pai."

Leda Bossi


Quando era criança nossa maior alegria eram os pintinhos nascendo. Nunca comíamos os bichinhos de estimação que acabavam virando, mas os ovos... Ah, os ovos eram OURO nas nossas refeições. 




Até hoje tenho muito carinho por estes bichinhos... Neste dia ela havia botado o primeiro ovinho... Lindo que só!





sábado, 28 de fevereiro de 2015

SER MÃE É FATAL

“O que usa de engano não ficará dentro da minha casa; o que profere mentiras não estará firme perante os meus olhos!” Salmos 101:7

 “A barata diz que tem sete saias de filó... É mentira da barata, ela tem é uma só...” Este era o refrão predileto do meu filho mais novo. Cantava para o Ro, enquanto o colocava sentado em cima da mesa, eu em pé, para a gente poder trocar beijinhos de pertinho, abraços intermináveis e carícias com os olhos. Ele adorava sentir meus cílios tocando os dele, em sintonia com nossas piscadinhas. Quando parava de cantar para ele e lhe dizia que seu nariz já estava crescendo igualzinho ao do Pinóquio, era o momento certo para que me contasse mais um pouquinho da sua louca aventura. Aos poucos, ia costurando os fatos mais doidos de minha pior e mais fascinante experiência materna. Por Deus, como é difícil ser mãe!  E eu cutucava as memórias daquele menininho apronta quieto, esperto, amoroso e muito falante! – “Quer dizer, então, que a baratinha pegou um ônibus” – E ele continuava a história... “O home disse pra mim: Cuidado, menino, você vai cair!” Em outros momentos, frases curtas: “O onbus abria a porta e fechava, cansei, desci”. Certa vez, ao voltarmos das compras, passei embaixo do viaduto que ligava meu bairro à Vila dos Remédios, o carro atrás de um veículo, quando meu filho falou: “Mamãe, meu onbus passou daqui, tinha aquele dois ali e era verdinho”. A despeito de minhas ansiosas indagações, respostas chegavam só quando bem entendia. Uma tarde, no clube que frequentávamos, quando passávamos pela catraca para entrar na piscina, ele gritou: “É igualzinha do meu onbus!” Eu jamais o levara para passear de ônibus, embora meu filho sempre pedisse.

LIBERDADE FEMININA

“O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam. Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda. Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do SENHOR por longos dias.” Salmos 23:1-6

 O Rodrigo chegou oito anos após o meu primeiro filho. Estava trabalhando na zona leste, muito longe de casa. Precisava iniciar uma faculdade para conseguir pontos, ficar bem classificada e escolher uma sala de aula num colégio mais próximo. Fiz inscrição para exames de vestibular, no Curso de Letras, planos para finalmente realizar meus sonhos de mulher: ESTUDAR! Quando descobri que estava grávida, meu marido tentou me impedir de continuar com estas ideias. Ou uma coisa, ou outra! Não dá para ser mãe, trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Citou a palavra aborto. Sei que não era o que queria. Força de expressão para me forçar uma decisão. Esta chegou rápida, como as batidas do coraçãozinho do meu amor. Eram tão fortes que eu o sabia vivo, um ser minúsculo gritando fome de vida dentro do meu ventre! Minha resposta não poderia ser outra: “Quero tudo!”

Sou de um tempo em que a mulher não tinha vez, nem no mercado de trabalho, nem nas decisões políticas, muito menos no prazer sexual. Em nossa cultura, o centro de tudo era o homem. Foi a minha geração que conquistou esta esperança de liberdade. O advento da pílula anticoncepcional nos trouxe a possibilidade da liberação do orgasmo, muitas vezes contido pelo medo de gravidez indesejada. O mercado de trabalho abriu portas para a mulher, não sem antes fechá-las a todos, inclusive aos homens. Tanto que até hoje, mulheres ganham menos do que homens. E, atualmente, retiram deles vagas no mercado de trabalho, por pura contenção de despesas. Manifestações políticas roubadas ao tempo nos ajudaram nesta busca de liberdade. Sou de uma época em que mulheres permaneciam casadas a vida toda, insatisfeitas, porque não podiam ser rotuladas, a força de ficarem “faladas”. O divórcio trouxe a possibilidade de sonharmos de igual para igual. No entanto, esta luta feminista também nos deu a amargura da sobrecarga. Temos que nos desdobrar em duas, três, dez mulheres ao mesmo tempo para darmos conta de toda responsabilidade que abraçamos. Desde menina, eu quis ser livre. Trabalhar e estudar eram e são até hoje metas essenciais, mas ser Mãe, nos é fatal! E como é difícil, meu Deus, largar filhos nas mãos de estranhos! Ainda ouço as palavras derrapadas rua abaixo, quando saía para trabalhar e deixava meu filhinho de menos de dois anos nos braços da babá: “Mamãe, eu te amo, não demola pra voltar di casa!” Dirigia meu carro de vidros abertos para colocar uma das mãos para fora da janela e acená-la em adeus, olho cheio de lágrimas! Choro toda vez que me lembro destas cenas e aproveito cada oportunidade que ainda tenho para beijá-lo e lhe dizer que também o amo até hoje! E o amarei eternamente!
AGOSTO: UM MÊS DE DESGOSTO

“Pois quanto maior a sabedoria, maior o sofrimento; e quanto maior o conhecimento, maior o desgosto”.  (Eclesiastes 1:18)

 Hoje percebo claramente o que minha intuição dizia muito antes de se tornar real alguns fatos que aconteceram depois. Perdi os meus entes amados, mais amados, sempre neste mesmo mês: marido, mãe, sogros, vovó Constança, Dindinha... Todos partiram assim, no meio da fumaça das queimadas, que mãos insanas ateiam fogo, quando a música das chuvas não limpa os céus de seus trovões costumeiros. Um ano antes de ficar viúva, eu e meu marido nos separamos. Foi um agosto triste para os quatro. Nós dois e as crianças sofremos demais! Minhas muletas foram os livros! O trabalho! E meus filhos, minha salvação! Aquela primavera chegou tensa. Precisava espairecer. Decidi fazer uma viagem para o litoral sul, só eu e meus meninos. Consegui reservar um cantinho. Paguei antecipadamente, com um cheque pré-datado por um apartamento em Peruíbe. Mas, ironia do destino, a proprietária foi assaltada e levaram meu cheque dentro da carteira guardado. Claro que aquela senhora, após ter feito o BO na Delegacia do bairro, avisou e me pediu para trocar o cheque, além de sustar o pagamento junto ao Banco Bradesco. Uma semana depois, recebi o aviso de que o mesmo havia sido encontrado amassado no caixa de uma agência qualquer. Tentaram resgatá-lo sem sucesso. De posse do mesmo, fui à residência da proprietária do apartamento conversar com ela. Só que todos estes movimentos de peças de xadrez contrários aos meus desejos, deixaram-me desanimada e sem motivação para continuar com o jogo. Queria desfazer o compromisso da viagem. A conversa entre mim e ela ficava cada vez mais tensa. Não conseguíamos nos entender. A última vez que vi meu filho de dois aninhos foi descendo as escadas atrás do irmão mais velho.

CINCO HORAS MAIS LONGAS DE MINHA VIDA

“Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele tudo fará”. Salmos 37:5

Ajustes acertados, despedidas tensas. Desço as escadas para ir embora. O sobrado ficava no fim de um morro de uma rua movimentadíssima, onde passavam vários ônibus, que partiam em direção ao centro da capital paulista, Osasco e somente um deles (Apenas UM!) para o Mercado Municipal de Pirituba, caminho de minha casa. Enquanto desço, meu filho de dez anos sobe sozinho... Pergunto assustada pelo irmãozinho de dois. A resposta chega rápida e certeira: “Não sei, ele ficou com você”. Não, ele havia descido as escadas minutos antes atrás do irmão mais velho. Desespero! As horas que transcorreram foram as mais terríveis de toda minha vida! A Rua Antonio Ayrosa, na Vila Jaguara, estava em reformas pela SABESP, canos imensos de esgoto, alinhados aos buracos enormes, à espera do término da obra, que se encontrava a meio caminho. Dirigia meu carro desesperadamente! Parava e a pé, procurava por meu filho, gritando o nome dele como louca insana. Meu único desejo era encontrá-lo dentro daqueles buracos antes que a tempestade chegasse. O céu estava tão escuro quanto o meu coração! 

O primeiro milagre aconteceu. A tempestade se dissipou, antes de cair em enxurrada sobre nós, mas meu tormento, após três horas de buscas, não terminou! Fui à Delegacia mais próxima fazer um BO. O delegado me antecipou algumas possibilidades. Afinal o sobrado tinha no portão um ponto de ônibus! Fui à Estação Santa Brígida, em busca de informações. Ninguém havia visto uma criança tão pequena naquele local. Ali deixei o número fixo de minha casa, e me lembrei de que se alguma notícia boa chegasse, eu não estaria lá para atender ao telefone. Voltei à Delegacia e deixei o número dos meus vizinhos. Ao mesmo tempo, que sem pudor nenhum, chorando convulsivamente, ajoelhei-me diante de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, ali, na sala de espera daquele lugar. Durante meu encontro íntimo com Ela, um pensamento veio à tona. Precisava avisar os meus vizinhos. Pedi para fazer a ligação. Deixaram. E a notícia me alegrou: “Venha para casa imediatamente, seu filhinho está aqui!”. Cheguei em casa louca de emoção. Enquanto o abraçava sem ainda acreditar no milagre que ocorrera, ouvia: “Onde você estava, mamãe? Por que você não me atendia?” Meu bebê tinha olhos fundos de cansaço, pezinhos com bolhas de tanto andar. Dormiu após o banho, sem nem mesmo querer se alimentar, além do meu leite materno, que insistia em não largar e que eu, maravilhada, lhe cedia! Só depois de cuidar dele é que soube que chegara num carro azul, com cinco rapazes, que jamais conheci. Nunca pude agradecer o que fizeram. Só sei que encontraram uma criança sozinha, atravessando a rua, que quase o atropelaram. Pararam e fizeram perguntas. Meu filho sabia dizer o nome de todos na família, dizia que a mamãe era professora de Inglês no colégio que subia a rua, e que virando tudo às esquerdinhas, chegava em casa. Pelo que ouvi dos vizinhos, pelo que me contou meu anjinho, um milagre aconteceu conosco. O Rodrigo entrou em um ônibus, atrás de pessoas, e dele saiu, atrás de outras pessoas, reconheceu onde estava e voltou a pé, sozinho, para casa. Entre dezenas de linhas de ônibus, meu filhinho entrou num único, que passava de hora em hora, que o levou para minha casa!

Liz Rabello (In INTERVALOS, Editora Beco dos Poetas, 2013)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015




VERDE AMARELO  AZULADO E  UM BRASIL FELIZ!

Adorava ir aos domingos visitar minha irmã e ficava por longos minutos olhando para um casal de araras tentando imaginar o que conversavam . As cores verde, amarelo, azulado me faziam sonhar com meu povo sendo feliz assim pelo resto da vida.

Certa vez um ovinho, dois... Num lindo ninho que ele construiu para ela. Continuavam nos namoricos, o ninho ali, perdido, com dois ovinhos muito frios, que ela não fazia a mínima questão de esquentar. Ele zangou. Deu uma surra nela, estraçalhou o ninho e voou para outras bandas.

E daí se desfez o meu sonho de brasileiros felizes para sempre.


Liz Rabello



EU BUSCADOR DE MIM

Lembro-me de uma tarde, por volta de seis horas. Fazia frio, muito frio! No entanto, não o sentia, olhava para o céu que não tardaria a escurecer, já escondendo os raios do sol na linha perdida do horizonte. Pedia em oração que a luz levasse embora a tristeza que eu tinha e que trouxesse pela noite adentro saúde para meu pai.

“- Filha, faz tanto frio, vem pra cá, que eu quero te abraçar.” Era ele, sempre macio, carinhoso pai. O melhor de todos e dentro dos braços dele eu encontrava a paz e a alegria de viver. Desistia de buscar por mim.

Acordei na manhã seguinte com os berros de mamãe. Ela estava chorando muito na beira da cama, onde meu pai agonizava. Procurei por Deus, em oração. Perdidas palavras! Implorei ao divino, que me concedesse uma infância maior ao lado de papai. Minha oração não vingou. A morte o levou e eu fui com ela. Nunca mais parei de buscar por mim.

Liz Rabello

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015


NÓS DOS LAÇOS

Perdida no vazio das horas
Angústia de quem ama em vão
Cristais de sangue estilhaçados
rosas murchas em solidão!

Meu coração se fez em mil pedaços
E em cada corte se transmuta inteiro
porque você rasga os nós dos laços
costura estrelas, brilhas nos espaços!

Liz Rabello

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

MAGIA DE CORES 



Extasia-me o olhar
deixa-me inebriada
a candura da serra
as hortências azuis
mistura de ferro e trilhos
campos de flores
brincos de princesa
pássaros a beber seu mel
o passeio de Campos do Jordão
até Santo Antonio do Pinhal
é só luz... Magia de cores
a brincar com o verde dos penhascos

Liz Rabello





quarta-feira, 21 de janeiro de 2015



O “POBREMA “ É SABER SE É BARATO OU BARATA

Todas as previsões bombásticas estão se realizando. Em São Paulo, megametrópole urbana já é impossível viver: trânsito insuportável, calor maior do que 37 graus a qualquer hora do dia. As janelas não são mais fechadas à noite e sim de dia, para que o sol escaldante não derreta travesseiros de penas de gansos. Chuvas torrenciais de fim de tarde chegam com ventos e pedrinhas de gelo, que se derretem no asfalto secando em minutos e formando uma nova serração na metrópole: a evaporação instantânea.

Sombrinhas são usadas dentro do ônibus para nos livrar do sol que queima demais. E o pior é que mesmo as baratas, estes bichinhos que têm vida até após a bomba nuclear, não estão suportando. Saem dos esconderijos a procura de ar fresco e desandam pelos pés dos usuários de ônibus aturdidos e enlouquecidos duplamente por duas catástrofes ou três: sede, calor e repulsa!  Mas o bom humor dos paulistas não se deixa levar pela armadilha do tempo, e um homem simples grita do fundo do ônibus inundado de baratas: “O pobrema é saber se é barato ou barata”...


Liz Rabello

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015


PARA REDUZIR ENCHENTES QUEBRE O CINZA DE SEU QUINTAL
 E SUBSTITUA POR ÁREAS VERDES


Gramado dá trabalho, mas deixa um ar rural mais aconchegante. Plantei várias primaveras e um pé de jabuticaba. O calor fica bem menor e o cheirinho agradável de terra molhada não tem preço.



domingo, 4 de janeiro de 2015

CHUVA, CHUVINHA... VENHA MINHA LINDA E NÃO SE APRESSE A IR EMBORA... PODE FICAR! 

O dia amanheceu assim... Muita chuva, paz, beleza... Tudo o que a gente precisa para viver de bem com a natureza...