ENSAIOS

ESTÁTUA DE BRONZE DE MINHA SAMPA


IDÍLIO OU O BEIJO ETERNO

"Idílio ou Beijo Eterno" é uma escultura de William Zading, criada em 1920 e implantada na cidade em 1966, no Largo de São Francisco, em frente a Faculdade de Direito da USP. A escultura foi encomendada pelo Centro Acadêmico Onze de Agosto, em homenagem a Olavo Bilac.
Foto de Liz Rabello 

POEMA EM PROSA PARA UMA ESTÁTUA DE BRONZE

Bilac meu patrono na ALPAS
Desde cedo me fez estrelas amar
Versos seus meu tio a declamar
Em meus ouvidos a sussurrar
Também pelo Centro Acadêmico
Pelo sueco escultor William Zading
Se imortalizou numa estátua de bronze
O IDÍLIO ou O BEIJO ETERNO virou

Sabe-se pelo folclore urbano paulista
Que alunos de Direito
Sequestram estátuas
Para embelezar sua escola
Prova é o busto de José Bonifácio
Num nicho no hall de entrada do edifício
Mostra do velho ato vulgar
Mas que consegue obras de arte salvar

Na Faculdade São Francisco
Quem por ali põe os olhos
Sobre a estátua de bronze
Eternizando um beijo etéreo
Não imagina histórias de mudanças
Homem nu beijando índia?
Pode não, dizia multidão
Mas ali na Faculdade virou opinião!



Este bronze eternizou o ósculo
Da índia com o jovem francês
É uma das cinco peças de bronze
Que no final da Paulista, na década de 1920
Busto de Bilac no centro
Nas laterais, A Tarde, O Caçador de Esmeraldas,
O Beijo Eterno e Pátria e Família,
Representavam os escritos do poeta


 Foto de Liz Rabello

O IDÍLIO censurado por cidadãos de bem
Escreviam pros jornais
Escultura atrapalha o trânsito
Mão de Bilac mais parece
Pássaro de bico aberto
Homem nu abraçado à mulher?
Jovem francês beijando índia?
Pode não, dizia multidão!

Foto de Liz Rabello

Atendendo pedidos da população
Venceu a falta de informação
Do que é belo, e O BEIJO ETERNO  
Em 1936, a prefeitura
Desmontou a escultura
E jogou parte escandalosa
No fundo de um porão
E uma vez mais calou-se a multidão!
  
 Foto de Liz Rabello

Jânio Quadros, vinte anos depois
Ressuscitou a escultura
E o casal de namorados foi parar no Cambuci
Mas um pai indignado dizia que a imagem
Era um ataque aos olhos da inocente filha
Pode não, dizia a população
E a tal foi mandada pro porão
Só pra calar a multidão!


Dez anos depois, o prefeito Faria Lima
Resolveu aproveitar a inauguração
Dos jardins do túnel 9 de Julho
E por lá o casal de namorados
Ali podia se beijar em paz
Mas vereador ressuscitou velho sermão
Esta obra é coisa de demônio, pode não!
E será que ela vai de novo pro porão?

 Foto de Liz Rabello

Cansados de tanta polêmica,
Estudantes da Faculdade de Direito
Que lá no começo da história
Tinham pago e encomendado a obra
Resolveram cuidar do que era deles
Sequestraram o beijo transgressor
Fixaram a obra num endereço definitivo
Onde incompreendidos amantes se beijam até hoje!

Liz Rabello



IDÍLIO OU O BEIJO ETERNO

Na década de 10 do século passado, Olavo Bilac e sua campanha civilista chegaram a São Paulo e encontraram adeptos nas Arcadas. O movimento paulista, capitaneado pelo professor Vergueiro Steidel, fundou a Liga Nacionalista, que entre outras coisas pregava a instrução pública gratuita, o alistamento militar e diversas outras ações. A Liga teve destaque em grandes momentos da história paulistana, como quando da Gripe Espanhola e da Revolução de 1924, o que acabou lhe valendo a dissolução oficial pelo presidente Arthur Bernardes. Quando Bilac faleceu, em 1918, aos 53 anos, os membros da Liga Nacionalista, cuja direção e maioria dos membros eram estudantes e professores da Academia de Direito, e em menor número da Politécnica e da Faculdade de Medicina, resolveram fazer uma homenagem ao poeta. Após o levantamento dos fundos necessários, contrataram o escultor sueco William Zading, professor do Liceu de Artes e Ofícios, para esculpir um conjunto monumental em honra a Bilac. O monumento foi inaugurado em 1922, durante as comemorações do Centenário da Independência, pelo então governador Washington Luís.


BEIJO ETERNO
Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!
Fora, repouse em paz
Dormida em calmo sono a calma natureza,
Ou se debata, das tormentas presa, -
Beija inda mais!
E, enquanto o brando calor
Sinto em meu peito de teu seio,
Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,
Com o mesmo ardente amor!
De arrebol a arrebol,
Vão-se os dias sem conto! E as noites, como os dias,
Sem conto vão-se, cálidas ou frias!
Rutile o sol
Esplêndido e abrasador!
No alto as estrelas coruscantes,
Tauxiando os largos céus, brilhem como diamantes!
Brilhe aqui dentro o amor!
Suceda a treva à luz!
Vele a noite de crepe a curva do horizonte;
Em véus de opala a madrugada aponte
Nos céus azuis,
E Vênus, como uma flor,
Brilhe, a sorrir, do ocaso à porta,
Brilhe à porta do Oriente! A treva e a luz – que importa?
Só nos importa o amor!
Raive o sol no Verão!
Venha o Outono! do Inverno os frígidos vapores
Toldem o céu! das aves e das flores
Venha a estação!
Que nos importa o esplendor
Da primavera, e o firmamento
Limpo, e o sol cintilante, e a neve, e a chuva, e o vento?
Beijemo-nos, amor!
Beijemo-nos! que o mar
Nossos beijos ouvindo, em pasmo a voz levante!
E cante o sol! a ave desperte e cante!
Cante o luar,
Cheio de um novo fulgor!
Cante a amplidão! cante a floresta!
E a natureza toda, em delirante festa,
Cante, cante este amor!
Rasgue-se, à noite, o véu
Das neblinas, e o vento inquira o monte e o vale:
“Quem canta assim?” E uma áurea estrela fale
Do alto do céu
Ao mar, presa de pavor:
“Que agitação estranha é aquela?”
E o mar adoce a voz, e à curiosa estrela
Responda que é o amor!
E a ave, ao sol da manhã,
Também,. a asa vibrando, à estrela que palpita
Responda, ao vê-la desmaiada e aflita:
“Que beijo, irmã!
Pudesses ver com que ardor
Eles se beijam loucamente!”
E inveje-nos a estrela... e apague o olhar dormente,
Morta, morta de amor!...
Diz tua boca: “Vem!”
“Inda mais!”, diz a minha, a soluçar... Exclama
Todo o meu corpo que o teu corpo chama:
“Morde também!”
Ai! morde! que doce é a dor
Que me entra as carnes, e as tortura!
Beija mais! Morde mais! Que eu morra de ventura,
Morto por teu amor!
Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue: acalma-o com teu beijo!
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para minha vida,
Só para o meu amor!

Olavo Bilac

PESQUISA




http://almanaque.folha.uol.com.br/monumento_beijo.h


VIAJAR EM DIAS DE GREVE NÃO É FÁCIL

Tudo o que desejava fazer, estou realizando. Viajei para Cruz Alta sozinha. Desafiei todos os meus limites. Fui por Porto Alegre, pela Latam, através dos pontos da Multiplus. Desci no aeroporto e peguei um táxi até a rodoviária, onde tinha viagem paga e programada. Um veículo com assento leito. Híper confortável. Semi direto, com pouquíssimas paradas. Após sete horas de viagem, cheguei na rodoviária de Cruz Alta, onde peguei outro táxi direto ao maravilhoso Rosmer Palace Hotel. 




Cheguei inteiraça. Tomei um banho, arrumei os meus pertences e logo ouvi o telefone interno do hotel tocando. Era a presidente da Academia Internacional de Cruz Alta ALPAS 21, me pedindo pra descer. Fomos a um restaurante local, eu, ela e uma menina Argentina, que se tornou minha amiga imediatamente e não mais nos desgrudamos. 



TUDO ISTO SÓ PRA NÓS?



Foram três dias de muitas atividades, as quais me fizeram lembrar do passado, mas não com tristeza...Sozinha sou mais eu. Não passo por humilhações e não me senti rejeitada, muito pelo contrário. Fui abraçada, acolhida, bem tratada. O povo gaúcho é muito acolhedor. Foram pequenos gestos de acolhimento, como na noite de despedida, que fui a um churrasco na casa de amigos, onde tomei licor de laranja, colorido de azul aniz. Ficamos todos de rostinho corado e demos risadas mil.

Durante todo o trajeto de ônibus, de Porto Alegre a Cruz Alta, passamos por várias barricadas que demonstravam que a greve dos caminhoneiros iniciava a todo vapor. Bandeiras brasileiras hasteadas nas antenas dos veículos. Pelo que sabemos de greve, não existia a presença de Sindicatos, nem de elementos representantes dos trabalhadores rurais ou de responsáveis pelos caminhões. Na sexta-feira pela manhã, nas ruas paralelas ao Rosmer Palace Hotel, onde estava hospedada, a caminho do Clube Internacional de Cruz Alta, eis que me deparo com uma passeata de Caminhoneiros. Tratores dividiam as ruas com pesados transportes à óleo Diesel. 


que li nos vidros de três caminhões? "QUEREMOS INTERVENÇÃO MILITAR". Tive uma diarréia no mesmo instante psicológica e física. Entrei em uma loja pedindo socorro. Voltei ao ponto de partida, não sem antes tirar algumas fotos e observar que dos ônibus parados saíssem madames loiras, belas e perfumadas só para engrossar o movimento. Era uma palhaçada de gente que não combinava nada com nada. No meio deles estavam homens banguelas, de ásperas mãos, retrato vivo de empregados da lavoura, de uma zona rural como é toda aquela região. Outros, homens fortes, estes, sim, caminhoneiros, porém manifestoches, lutando por causa justa ao lado do patrão. Paradoxo do grevista que pede ao dono do poder, ao lado dele, uma intervenção militar que é justamente o trocadilho do momento: Usar a greve, que é um direito da esquerda, para fins políticos da direita torta.


Agora, a volta? Bem esta foi uma outra história que te conto a seguir. Uma maratona. Desde o princípio da programação da viagem, a volta tinha horários entre voo e transporte rodoviário que não se combinavam. Resolvi não usar os pontos da Multiplus e pagar por um voo da Azul. Decisão acertada, pois a Latam deixou muitos usuários sem transportes aéreos. Sairia de Cruz Alta com um carro particular de um rapaz que me cobraria pela viagem do hotel até o aeroporto de Passo Fundo. Na véspera, voltando de um passeio com a mesma pessoa, eis que lhe pergunto se já havia abastecido o carro. Perante a resposta negativa, fiz outra:  O tanque de combustível cheio é suficiente para ir e voltar? – Outra resposta negativa.  Alertei de que eu e meus filhos estávamos alarmados com a possibilidade de que eu poderia ficar pela estrada, no meio do nada, sem saber como voltar para casa. Disse-lhe que em São Paulo, já não havia postos abertos com combustível.  Imediatamente o rapaz foi abastecer o carro e não conseguiu encontrar nenhum posto aberto. Ao me dar a notícia de que não poderia assumir o compromisso de me levar ao aeroporto, me falou que me levaria à rodoviária para comprar uma passagem (caso tivesse). Lá fomos nós e conseguimos uma num ônibus intermunicipal, que sairia pela manhã do mesmo dia, onde tinha um voo a me aguardar, naquela tarde de domingo. Marcamos o horário que viria me buscar para levar-me ao aeroporto. Quase não dormi de preocupação. Acordei em tempo hábil, fechei a conta do hotel, paguei e fiquei esperando, esperando, esperando. Até que um funcionário do hotel chamou um táxi para mim.  Eu já havia pago na noite anterior pela carona que teria. Duas vezes o mesmo trajeto, mas cheguei a tempo na rodoviária para pegar o ônibus já quase partindo sem mim.  


Foi então que o motorista ao pegar minha bagagem e colocá-la no lugar adequado me deu a triste notícia:  “A senhora sabe que não vou para o aeroporto? Vou deixá-la na rodoviária de Passo Fundo. O aeroporto é longe e é provável que não haja táxis por conta de ausência de postos abertos”.  Gelei. Mas tomei a decisão acertada.  Entrei no ônibus. Foi um tour por mais de dez cidades pequeninas. Um entra e sai de crianças, homens simples, mulheres alegres e falantes, jovens indo para diversões domingueiras. Gostei da viagem, embora nenhum pouquinho confortável. 


No meio do caminho, eis que o céu se fechou de repente. O medo tomou conta de mim. E se cair uma tempestade? O que vou fazer no meio daquele deserto sem nada de nada?


Imediatamente eu me lembrei de uma frase que foi dita para mim numa das tardes de nossas atividades literárias:  "Nunca permitas que teu medo te domine, pois eis que ele acaba com as tuas forças"...  Não permiti!

As nuvens escuras desapareceram. Cheguei na rodoviária e consegui entrar em um táxi que me levou até o tão desejado aeroporto. Já sabia que a Azul cumpriria o voo até Campinas, mas retirara o translado à capital paulista, como fazem de hábito. Já combinara com meu filho que ele iria me pegar de carro. O combustível estava reservado para isto. Ao chegar no aeroporto, a surpresa. Tudo fechado: restaurantes, guichês. Somente eu e dois seguranças, que não sabiam me dar informações. Daí me desesperei até que vi uma senhora da limpeza, muito tranquila que me abriu a porta e me fez entrar. Disse-me que o único voo do dia programado era o meu e que os funcionários chegariam perto das três da tarde para o chekin e despacho de bagagens. O mesmo com o pessoal do restaurante. Por uma tarde tive um aeroporto só pra mim...  Quer mais? 

Liz Rabello



MASSA DE MANOBRA

A Rede Globo lançou o furor. O PSDB arquitetou e se uniu aos outros partidos, mas a elite sempre soube por que foram às ruas pela segunda vez. A primeira em 1964, na Marcha da Família. Para eles se "safarem" das próprias corrupções é o bastante. A classe média quer chegar ao topo e rastejam atrás da elite. São os famosos "coxinhas", comem do mau a pior e arrotam "caviar". Apoiar a venda da Petrobrás, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, privatizar as Estatais sempre foram os objetivos do PSDB, partido que defendem. Agora já conseguiram, inclusive que o BNDES "empreste dinheiro" para empresas privadas adquirirem suas próprias estatais. Modo tucano de desgovernar o nosso país. Para eles, o estilo Maria Antonieta, que a Marcelinha veste muito bem é o que importa. Para eles, as viagens a Disney com seus filhos é o que importa. Para eles, as viagens de compras a Miami é o que importa. EUA por trás do Golpe???? Que é que tem. Não vem ao caso! Sempre foram vira latas rastejando ao redor do mais forte! Agora que se danem os pobres sem teto, sem terras, sem SUS, sem remédios para Aidéticos, controlados pelo governo e gratuitos, aumento substancial aos Planos de Saúde, sem farmácia popular, sem escolas para deficientes, sem ambulâncias para todos, sem universidades para pobres, através de cotas pela escola pública, sem PROUNI, sem ENEM, sem PRONATEC, aposentadoria só depois dos 75, ou jamais se morrer antes, sem décimo terceiro, terceirização ou flexibilização para todos os trabalhadores, mordaças aos professores, censura em sala de aula. Escolas apartidárias? Ou com ideologias deles? Repressão às opiniões. Policiais militares tratando manifestantes como bandidos. Sem cotas em universidades para negros... Aliás, o que já li: "Que voltem para a senzala, lugar de onde jamais deveriam ter saído!"... Incrível, pois esta frase foi escrita por um pobre coitado, coxinha mal vestido e mal pago! Estes, é que são os verdadeiros MASSA DE MANOBRA, que não admitem que são, que não percebem, porque muita burrice viveu até então.
Liz Rabello/2017
“ROUBA MAS FAZ”

 

Você já deve ter ouvido esta expressão: “Rouba, mas faz”, famosa na atualidade por ser uma das frases folclóricas, que se atribui adjetivos ao multi processado político paulista Paulo Maluf. Na verdade, a origem da menção “qualificadora” é bem mais remota. Vem da eleição municipal de 1.957, em que Ademar de Barros disputava, como candidato a prefeito, o pleito no município de São Paulo. Seu adversário lançou o slogan “Ademar, rouba mas faz”! - Que “pegou”.  Sempre houve baixaria e sujeira em nossas campanhas políticas. Caricaturas e anedotas é o que nunca faltaram. Na campanha ao governo de São Paulo, Jânio Quadros e Adhemar escreveram uma página de insultos, ataques pessoais, de baixo nível. Na época não existia a palavra ‘corrupção’. O termo usado era ‘negociata’. O então candidato a prefeito, dizem, era muito bom em negociatas. O ‘rouba, mas faz’ teve sucesso no pleito. Os exemplos de como é prejudicial a corrupção, que desemboca na falta de escola, de hospital decente e de comida na mesa das pessoas, deveria ser de amplo conhecimento popular. Deste modo os incautos não venderiam mais o voto nas eleições ou não mais cairiam no conto do ‘rouba mas faz’.

“Quem não conhece?
Quem nunca ouviu falar?
Na famosa 'caixinha' do Adhemar.
Que deu livros, deu remédios, deu estradas.
Caixinha abençoada!"


Com cantigas, anedotas ou sei lá mais o quê, o certo é que o povo é massacrado com mentiras, pois afinal, se não rouba, o político faz mais. Assim é que deveria ser!


Uma das “tradições” da política brasileira é a do “rouba, mas faz”, sobre o governante que enfrenta denúncias de corrupção ao longo do mandato, mas é querido pelo povo por causa das obras que realiza. Ex-governador de São Paulo e ex-prefeito da capital paulista, Ademar de Barros (1901-1969) até hoje é identificado com esse “lema”. Entre o início de sua carreira como deputado estadual, em 1934, e sua cassação pelo regime militar, 32 anos depois, ele colecionou feitos administrativos, suspeitas de desvio de dinheiro público e muita polêmica.   Numa época, onde os meios de comunicação eram os jornais “O Estado de São Paulo” e o rádio, a serviço da classe dominante, não se sabe ao certo se as denúncias contra Ademar sobre corrupção realmente foram leais. Seu lema era "São Paulo não pode parar", que tempos depois seria reiterado por Paulo Maluf. Deste, não há dúvidas de que rouba, e não sei não, se realmente fez!


"Por onde passar a energia elétrica, passarão o transporte, o médico e o livro"

Jaraguá, um bairro de periferia da cidade de São Paulo, já foi muito importante no passado, por conta de sua ferrovia, construída pelos Ingleses, com o aval dos grandes fazendeiros, que utilizavam os trilhos para enviar ao porto de Santos e de lá para o exterior os frutos do trabalho árduo dos paulistas. Com o abandono das redes ferroviárias e o crescimento e investimento em rodovias, principalmente nas mãos de Ademar de Barros, cujo lema era “São Paulo não pode parar”, obras, como a construção da segunda pista da Rodovia Anhanguera e a segunda pista da Rodovia Anchieta, ambas pavimentadas e que se tornaram as duas primeiras rodovias brasileiras de pista dupla, foram realizadas. Adhemar seguiu uma tradição de antigos governantes paulistas, como Washington Luís, que dizia que "governar é abrir estradas".

A pavimentação de estradas, com asfalto e concreto, uma inovação na época, feita por Ademar, era malvista e criticada por muitos políticos, que a consideravam um processo muito caro. Muitos políticos da época entendiam que os recursos públicos estariam melhor empregados se fossem usados na construção de novas estradas de terra e na manutenção e conservação das estradas de terra já existentes. Ninguém pensava na melhoria e conservação das estradas ferroviárias.

Contudo, um outro slogan de sua campanha era a expansão da energia elétrica. Nos comícios de rua, Ademar de Barros prometeu aos moradores do Jaraguá a chegada da luz elétrica, muito precária em vários pontos. Campanha realizada, povo crente, até subiram os caminhos tortuosos do morro do Jaraguá até o Pico com velas, à meia noite, em ato de jejum e de fé, a favor da vitória do homem que roubava, mas fazia. Com tanta garra, claro que o candidato venceu as eleições. Tomou posse e nada.  A luz elétrica não vingava.  O povo indignado não teve dúvidas. Lançaram mão de uma luta que até hoje a gente faz. Organizaram uma caminhada até os Campos Elíseos.  Saíram de trem e chegaram ao entardecer à luz de velas, numa enorme Passeata das Velas. Tanto gritaram que não demorou muito a luz se acendeu!
Liz Rabello


ALFABETIZAÇÃO... UMA BRINCADEIRA!



Fui alfabetizadora durante dezoito anos seguidos, num tempo em que meus filhos eram pequenos e, eles próprios vivenciavam estes momentos de primeiros contatos com a escrita.
  
Meu filho mais velho me deixou traumatizada por conta de que problemas familiares me fizeram optar por uma escola maternal para ele. Aos dois anos já estava frequentando o Colégio Pato Donald, que funcionava dentro do prédio do São João Gualberto, e, portanto, não era adaptado à criança tão pequena. Seus garranchos e rabiscos iniciais eram pautados de conceitos como “PÉSSIMO”, “SEM CAPRICHO” ou outros sinais de que quem o estava direcionando para os primeiros contatos com a alfabetização não tinha a menor ideia do mal que fazia para uma criança de dois aninhos. Se fosse hoje, eu o teria tirado daquela escola num piscar de olhos. Quando entrou para o ensino fundamental já estava farto de escola, carteiras, lousas, lápis e cadernos. Reagiu como alguém que não tinha capacidade para aprender. E tinha.




  A diferença entre os irmãos é de oito anos. Minha experiência negativa com o mais velho, deixou-me cautelosa com o mais novo. Não o coloquei na escola maternal, mas sim bem mais tarde. No entanto, por não ter com quem deixá-lo em casa, muitas vezes eu o levava comigo para a sala de aula. Usava vários materiais para a aprendizagem dos meus alunos e um deles eram os cartazes da Caminho Suave, a Cartilha e os varais. Tinha um jogo velho que deixei em casa e o meu filho se apropriou para brincar. Um dia eu o peguei no fundo do quintal pendurando os cartazes no varal de roupas e ensinando as galinhas a ler:

RA RE RI RO RU RUA!
SUAS GALINHAS BURRAS!

Ri muito da cena. E fiquei meditando se eu também não usava de brincadeiras para com meus aluninhos pequenos da Rui Bloem, onde lecionava. Acredito que sim... Um deles vivia me dizendo: “Já estou ficando cafuso... É muita letrinha pra me torturar!”
  
É claro que as galinhas jamais aprenderam a ler, mas o Rodrigo, sim! De tanto ensiná-las, quem se auto alfabetizou, foi ele próprio. Certa vez me disse num repente: “Mamãe, eu sei ler.” Abriu a Cartilha Caminho Suave e leu: LATA. Havia o desenho da lata e eu menosprezei a leitura. “Oras, você leu a imagem” – E ele mudou a página. Desta vez leu DADO. E novamente deduzi que a imagem é que decifrava o código. Ele se irritou e leu SAPO... A mesma repetição dos fatos. Para me provar que sabia ler não mudou de página, apenas leu uma das palavras da lição do sapo: SALADA! Oras bolas e num é que era o SA do sapo, mais o LA da lata, mais o DA do dado???? Ele ficou realmente zangado e berrou: “Eu sei ler!” E leu a página toda e depois outras páginas, enquanto muito emocionada eu o beijava de alegria... pois jamais o ensinara, apenas o deixei brincando com todo aquele material de alfabetização. Quando aos quatro anos eu o coloquei na escola Chácara Mundo Feliz ele já sabia ler e escrevia muitas palavras que aprendera sozinho por seu próprio interesse.





Isto me fez aprender a ensinar! E, principalmente a refletir sobre o que é que eu ensinava realmente quando queria ensinar algo que tinha em mente. Na verdade não é o conteúdo que importa, mas o MODO como fazemos o nosso trabalho.
Liz Rabello





2 comentários:

  1. Liz, assim como gostei muito de seu livro Intervalos, mescla de poesia e prosa, estou adorando ler estes seus ensaios. Você é boa escritora em prosa e verso. Parabéns.

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  2. Comecei lecionar em 1989 Liz Rabello, e antes mesmo do meu primeiro dia em sala de aula, já estava em greve rss, acredite se quiser. Me lembro que tinha assinado um contrato e a diretora me disse que assim que a greve terminasse eu assumiria as aulas, e foi uma greve longa e participei de todas as assembleias, mesmo ainda não sendo professor. Li o texto que escreveu e me lembro bem dessa época, alguns amigos foram demitidos pelo Jânio Quadros por causa da greve de 1987, mas o que chamou a atenção me fez rir por aqui rsss, foi a cabeça da menina sua aluna, você vê o que é a cabeça da criança rsss, ela achou q devido ao seu choro exagerado por ter que responder processo administrativo, só podia ser porque sua mãe tinha morrido, e espalhou a notícia rssss! Ter dedicado esse primeiro texto político à minha pessoa é uma honra, você escreve muito bem, obrigado!! (Cícero Carlos)

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