ENSAIOS


“ROUBA, MAS FAZ”

Você já deve ter ouvido esta expressão: “Rouba, mas faz”, famosa na atualidade por ser uma das frases folclóricas, que se atribui adjetivos ao multi processado político paulista Paulo Maluf. Na verdade, a origem da menção “qualificadora” é bem mais remota. Vem da eleição municipal de 1.957, em que Ademar de Barros disputava, como candidato a prefeito, o pleito no município de São Paulo. Seu adversário lançou o slogan “Ademar, rouba mas faz”! - Que “pegou”. 


Sempre houve baixaria e sujeira em nossas campanhas políticas. Caricaturas e anedotas é o que nunca faltaram. Na campanha ao governo de São Paulo, Jânio Quadros e Adhemar escreveram uma página de insultos, ataques pessoais, de baixo nível. Na época não existia a palavra ‘corrupção’. O termo usado era ‘negociata’. O então candidato a prefeito, dizem, era muito bom em negociatas. O ‘rouba, mas faz’ teve sucesso no pleito.

Os exemplos de como é prejudicial a corrupção, que desemboca na falta de escola, de hospital decente e de comida na mesa das pessoas, deveria ser de amplo conhecimento popular. Deste modo os incautos não venderiam mais o voto nas eleições ou não mais cairiam no conto do ‘rouba mas faz’.

“Quem não conhece?
Quem nunca ouviu falar?
Na famosa 'caixinha' do Adhemar.
Que deu livros, deu remédios, deu estradas.
Caixinha abençoada!"

Com cantigas, anedotas ou sei lá mais o quê, o certo é que o povo é massacrado com mentiras, pois afinal, se não rouba, o político faz mais. Assim é que deveria ser!



Este clima de intrigas virou uma das “tradições” da política brasileira: a do “rouba, mas faz”, sobre o governante que enfrenta denúncias de corrupção ao longo do mandato, mas é querido pelo povo por causa das obras que realiza. Ex-governador de São Paulo e ex-prefeito da capital paulista, Ademar de Barros (1901-1969) até hoje é identificado com esse “lema”. Entre o início de sua carreira como deputado estadual, em 1934, e sua cassação pelo regime militar, 32 anos depois, ele colecionou feitos administrativos, suspeitas de desvio de dinheiro público e muita polêmica.   Numa época, onde os meios de comunicação eram os jornais “O Estado de São Paulo”, a Revista "Manchete" e o rádio, a serviço da classe dominante, não se sabe ao certo se as denúncias contra Ademar sobre corrupção realmente foram leais. Seu lema era "São Paulo não pode parar", que tempos depois seria reiterado por Paulo Maluf. Deste, não há dúvidas de que rouba, e não sei não, se realmente faz!



A pavimentação de estradas, com asfalto e concreto, uma inovação na época, feita por Ademar, era malvista e criticada porque a consideravam um processo muito caro. Muitos políticos da época entendiam que os recursos públicos estariam melhor empregados se fossem usados na construção de novas estradas de terra e na manutenção e conservação das já existentes. Ninguém pensava na melhoria e conservação das estradas ferroviárias, muito melhores e mais baratas.

Jaraguá, um bairro de periferia da cidade de São Paulo, já foi muito importante no passado, por conta de sua ferrovia, construída pelos Ingleses, com o aval dos grandes fazendeiros, que utilizavam os trilhos para enviar ao porto de Santos e de lá para o exterior os frutos do trabalho árduo dos paulistas. Com o abandono das redes ferroviárias e o crescimento e investimento em rodovias, principalmente nas mãos de Ademar de Barros, cujo lema era “São Paulo não pode parar”, obras, como a construção da segunda pista da Rodovia Anhanguera e a segunda pista da Rodovia Anchieta, ambas pavimentadas e que se tornaram as duas primeiras rodovias brasileiras de pista dupla, foram realizadas. Adhemar seguiu uma tradição de antigos governantes paulistas, como Washington Luís, que dizia que "governar é abrir estradas".

"Por onde passar a energia elétrica, passarão o transporte, o médico e o livro"

Outro slogan da campanha era a expansão da energia elétrica. Nos comícios de rua, Ademar de Barros prometia aos moradores do Jaraguá a chegada da luz elétrica, muito precária em vários pontos. Campanha realizada, povo crente, até promessa fizeram em favor do candidato que a luz traria. Quando, finalmente, Ademar de Barros venceu o outro, aquele do "Varre, varre vassourinha" cumpriram os votos prometidos. Subiram os caminhos tortuosos do morro do Jaraguá até o Pico com velas, à meia noite, em ato de jejum e de fé, a favor da vitória do homem que roubava, mas fazia. Com tanta garra, claro que o candidato venceu as eleições. Tomou posse e nada.  A luz elétrica não vingava.  O povo indignado não teve dúvidas. Lançaram mão de uma luta que até hoje a gente faz. Organizaram uma caminhada até os Campos Elíseos.  Saíram de trem e chegaram ao entardecer à luz de velas, numa enorme Passeata das Velas. Tanto gritaram que não demorou muito a luz se acendeu!

Liz Rabello  



VIVEMOS A SÍNDROME DO ABSURDO! 
TRIUNFO DE TRUMP EM 9/11 EQUIVALE A NOVO 11/9
Acordei pensando que os paneleiros, finalmente, na raça, no desdém, iriam se dar conta do quanto fazem parte da síndrome do absurdo, pois são a bel prazer vira-latas, invejosos do poderio americano e de quatro pra eles. Trump significa a volta da raça branca ao poder, supremacia da nação americana, desigualdade social e hipócrita suprema, e nós não vamos passar de perdedores latino americanos. Não há compaixão pra ninguém, muito menos para brasileiros. É a volta do super homem invencível, o Batman, aquele perdedor nas Torres Gêmeas ficou morto no passado histórico.

Liz Rabello



DOUTRINAÇÃO MARXISTA?????   PAULO FREIRE?
OU MBL E ALEXANDRE FROTA??????

Esta semana a página com a biografia do autor, na Wikipédia, de “Pedagogia do Oprimido”, terceira obra mais citada do mundo em trabalhos de ciências humanas, foi alterada por um órgão governamental, que não teve o nome divulgado. Na alteração, Freire é acusado de “Doutrinação Marxista” e tido como responsável por uma educação “atrasada, doutrinária e fraca”. Contra os corruptos da verdade, e para combater esta falsa retórica, sugiro que, em momentos de formação dos Profissionais da Educação, realmente se comece a ler enquanto se pode, páginas de alguns livros importantes, um pouco por dia.  Para que os jovens professores saibam perfeitamente o que Paulo Freire sempre pregou. A base de sua pedagogia é DIALÉTICA, sim, com a REALIDADE DO ALUNO.  O ponto principal é o SIGNIFICADO.  Quando iniciamos no MOVA, Alfabetização do aluno trabalhador, a primeira palavra é TIJOLO, pois que tem SIGNIFICADO para o adulto.  Algo próximo e concreto.  Não adianta com o homem simples se falar em MERITOCRACIA, porque isto não tem SIGNIFICADO para ele.  Onde está a doutrinação marxista?  O que se quer é justamente o que pregam contra.  Aliás esta é a técnica do PSDB, PMDB e companhia.  Colocam na boca do povo o que é possível contra o PT, PSOL e PCdoB, exatamente aquilo que pretendem fazer.  É só lembrar do Collor, que antes das eleições dizia na boca de urna, através da militância, que Lula eleito iria confiscar poupanças. Claro, ele perdeu para Collor, cuja primeira ação foi realizar o confisco, que tanto alardeou que o PT faria.
Liz Rabello

PEDAGOGIA DA LIBERTAÇÃO

O ano de 1987 foi marcado por uma dura travessia em minha vida profissional., pois o então prefeito da cidade de São Paulo, Jânio Quadros, adotou posturas autoritárias em diversas situações. Seu governo foi marcado por insatisfações de vários setores do funcionalismo público, materializadas através de greves e protestos nas proximidades de seu gabinete, aos quais quase sempre respondia com demissões em massa, não sem antes agredir aos manifestantes com o desvio de função e auxílio da Guarda Civil Metropolitana, criada por ele, para atender aos anseios de segurança da população da cidade de São Paulo.

Trabalhava em duas escolas onde a maioria dos professores eram Comissionados, sem direitos legítimos de luta salarial, sem sequer possuírem um vínculo empregatício de ordem operacional, que lhes permitissem participação em lutas sindicais. Aliás, nem sequer possuíamos um Sindicato, que nos representasse enquanto categoria. O que tínhamos era apenas uma Associação de Professores do Ensino Municipal. Só bem depois dos fatos que pretendo narrar é que o SINPEEM foi criado, ao mesmo tempo em que a Constituição de 1988 deu ao trabalhador brasileiro o legítimo direito de lutar em greve por melhores condições de trabalho e salário.

Iniciamos o fatídico ano de 87 com as escolas da rede pública deterioradas, carteiras e vidros quebrados, salários muito aquém da inflação galopante que já estava em vigor na sociedade civil brasileira. Um descontentamento crescente, de ordem moral e financeiro tomava conta de todos os profissionais da Educação Municipal de SP. A greve foi unânime, com adesão voluntária. O prefeito encontrava-se em viagem naquele final de Março e início de Abril. Voltou pouco antes do feriado de Tiradentes e determinou a todos os diretores que enviassem a lista dos grevistas. Obedecida a ordem, o resultado foi terrível! Professores com mais de dez anos, vinte anos de carreira, na rua, sem direito a nada. Alguns foram proibidos até mesmo de entrar nas escolas que foram seu lar e seu recanto de amor à profissão até o dia 21 de Abril.

Não fui mandada embora de imediato, porque era concursada, em ambos os cargos, que possuía na rede. Mas meu nome pairava no meio daqueles que seriam indiciados em processo administrativo. Muito embora recebesse recadinhos costumeiros escritos pelo próprio prefeito e publicados em Diário Oficial, através da Assessoria de Imprensa do ditador mor do país de que seria também mandada embora da rede, as tramitações em juízo seguiram até meados de 88. Era uma nuvem negra em minha vida, uma fumaça me avisando do perigo. Quando recebi o aviso de que deveria comparecer ao setor de processos em andamento para constituir defesa com advogado da própria prefeitura, entrei em pânico. Viúva há pouco tempo, com filhos pequenos, pós graduação em andamento, não poderia sequer cogitar de ficar desempregada. O recado chegou às dez e meia da manhã. Não consegui mais dar aulas aos meus pequeninos da primeira série, nem despedir-me deles com o habitual e afetuoso abraço e beijinho no rosto. Chorei muito, convulsivamente! Colegas me substituíram na sala de aula enquanto outros tentaram me acalmar.

Era ainda um tempo de maior paz do que agora, que a gente conseguia andar pelas ruas do bairro da Lapa e se distrair com vitrines, comer um delicioso salgadinho na Pastelaria de esquina da Doze de Outubro, ir ao Mercado Municipal comprar balinhas de côco. Foi o que fiz, sem avisar ninguém.

Cheguei em casa pouco depois das três. Parentes me aguardavam no portão, primeiro perguntaram-me se sabia de minha mãe. Onde estava e com quem. Ninguém a encontrava. Depois veio a notícia: sua mãe faleceu! Dirigi feito louca para a Casa Verde. E qual não foi minha surpresa quando encontrei minha mãe muito viva, dando muitas risadas no portão com amigas, voltando de um passeio que fizera. Nada disse a ela sobre a notícia falsa, mas corri até o telefone mais próximo para ligar aos meus tios avisando da não morte da viva.

Dia seguinte, na escola, apurando os fatos, chegamos à conclusão que o boato saíra de minha própria sala de aula. Uma menininha quietinha, linda, espalhara a notícia falsa. Ao conversar com ela, descobri o que a motivara: “Ninguém chora daquele jeito que você chorou a não ser que a mãe morreu!” – Sábias palavras, que me fizeram rir muito, ao mesmo tempo em que aprendi a valorizar o que realmente tem valor.

Fui várias vezes depôr em juízo sobre o caso da greve. Provas e testemunhas foram anexadas ao processo e ele estava em andamento, quando a nova Constituição foi assinada e por ela, a greve sancionada como direito legítimo do trabalhador. É claro, sem nenhum amparo legal, fui absolvida. Consta em minha carreira um processo. É este! E tenho muito orgulho de ter lutado para conquistar o que tenho hoje!

Jânio Quadros pendurou as chuteiras. Dizem que tinha literalmente chuteiras penduradas em seu gabinete para evidenciar este desejo. Mas o real é que a vitória de Erundina do Partido do Trabalhador, no pleito deste mesmo ano configurou-se como uma dura derrota para Jânio Quadros, pois a mesma foi eleita amparada quase que exclusivamente por uma plataforma de esquerda antijanista. Para nós da rede pública anos dourados iniciaram. Seu primeiro ato foi a aquisição de volta de todos os comissionados que haviam sido demitidos pelo governo anterior e a anistia geral a todos os que sofriam o Inquérito Administrativo.

Como Secretário da Educação Paulo Freire, com a Ideologia do diálogo, Pedagogia da Libertação, Escola Feliz, onde o Professor fosse o mediador do saber. Era tudo o que eu precisava para crescer enquanto profissional. Nenhum outro governo foi tão bom quanto aquele para a educação do município de São Paulo.

Liz Rabello



BOLSA FAMÍLIA VENCE PRÊMIO ISSA, O NOBEL SOCIAL

Hoje estava lendo uma reportagem de 15 de Outubro de 2013: “A ISSA, fundada na Suíça, em 1927, e reconhecida por 157 países e 330 ONGs, Associação Internacional de Seguridade Social concedeu seu maior prêmio ao Bolsa Família. Os reconhecimentos, que ocorrem apenas de três em três anos, desta vez escolheu o Brasil, cujo programa foi julgado como "experiência excepcional e pioneira na redução da pobreza". Em entrevista coletiva no Ipea, Ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, afirmou que "premiação internacional reconhece o esforço do país para construir uma rede de proteção social". Estudo inédito do Instituto sobre o impacto da iniciativa na economia revela que se o Bolsa Família fosse extinto, a pobreza passaria de 3,6% para 4,9%. Além disso, cada real gasto com o programa, que completa dez anos, faz a economia girar 240%.





Quando terminei de ler e bati os olhos na foto, tive uma grata surpresa. Dei um zum na primeira para analisar melhor. 


Era ela, sim, a mesma mulher com quem me deparei na primeira manifestação com a presença de Lula ao vivo, na Avenida Paulista, em Março deste ano de 2016Conversei com ela e tirei outra foto,  que acabei postando logo depois:   As imagens e o depoimento falam por si:


EMPODERAMENTO DA CIDADANIA

Olhei e enxerguei de cara além dos olhos. Lá estava ela, mulher simples, uma filha mais velha de pouco mais de dez anos e um bebê de no máximo três meses. O que fazia ali no meio da muvuca que se iniciava para receber Lula numa manifestação na Avenida Paulista? Quando derrubei sem querer minha bolsa e me abaixei para pegá-la, a neném agarrou a tira com força e não quis mais largar. Começamos a conversar e eu indaguei pensativa: “Você não tem medo de estar aqui na Paulista?” Claro que projetei o meu próprio receio na pergunta feita na hora certa e no momento exato. A aula de História rolou. Com palavras vivenciadas falou de seu empoderamento de Cidadania, que se iniciou anos atrás na era Lula/Dilma. A valorização do negro, a emancipação da mulher. “Hoje assumi a minha identidade afro, sou cidadã deste país, vim das entranhas de Sergipe, tenho trabalho para alimentar os meus filhos, adquiri o meu próprio canto, uma casinha minha pra morar e posso sonhar em viajar para minha cidade de avião. Meu pai quase morreu na Ditadura Militar porque não obedeceu ao toque de recolher. “ Este povo que quer o Golpe, não sabe o que é fome... Não sabe o que é Miséria! “
Liz Rabello

MINHA RESPOSTA PARA MARCELA TEMER

"Vamos lutar anos para concertar os erros do PT? " - É o que a senhora escreve... CONSERTAR com "s"... Seria viável se seu amado golpista tivesse boas intenções com os pobres deste país. Se não permitisse que as mantenedoras de planos de saúde fossem PERDOADAS de suas dívidas com o SUS, e deixasse esta Instituição entrar em falência. Se o MINHA CASA MINHA VIDA não terminasse, se a pasta de DIREITOS HUMANOS não fosse extinta. Se RESPEITASSE O FATO de apenas ser um interino e não saísse mudando tudo o que os treze anos de PT conquistou para o povo. Se seu louco amado não permitisse que um pornô estuprador desse "dicas" para o Ministro da Educação, retirar um pensador de fato, como Paulo Freire, e seu DIÁLOGO, e não permitisse a mordaça em sala de aula. Se seu amado respeitasse as nossas estatais e não as deixasse serrilhar pelo exterior como o golpista Serra está fazendo. Se seu maridinho pensasse no povo que trabalhou até os sessenta e só terá aposentadoria aos 75. Se não quisesse retirar direitos trabalhistas da população e os deixasse a Deus dará com as Terceirizações e Flexibilizações na MP 727.... Teu pavão que mais parece um canibal está querendo impedir sírios de se refugiarem em nosso país. Nós que sempre fomos um povo de coração aberto a dor alheia... Tenho muito mais a escrever, mas acho que a senhora, recatada e tão bela, merece mesmo ficar em "concerto" musical além do lar, com todos os louros que seu "dólar" pode comprar. Não te desejo mal, nem ao seu filho, só te peço, que não o defenda, porque é indefensável.  (Liz Rabello)

“Os maus perdedores esqueceram que o Michel também foi eleito pelo povo ? O Michel foi escolhido pelo PT pois sabem a competência profissional e o histórico político dele. Se não confiavam na competência nele, estavam mentindo para o Brasil ao escolherem ele para VICE presidente. Golpe é quando alguém que não foi eleito tomasse o poder com a força. O Michel recebeu os mesmos votos que a Sra Dilma... se não sabiam disso é porque são mal informados. E PARA OS HATERS de plantão: Saiam da minha página, não estou na página de vocês ofendendo ninguém... Por favor vão Cuspir, Defecar e Vomitar no seu partido... ou se mudem para a Bolívia, para o Haiti ou para a Coréia do Norte... A Democracia Venceu no Brasil !!! Vamos lutar anos para concertar os erros do PT... o Mal feito por 13 anos, do Partido 13 ..... aliás... 13 é o número do Azar ? “ (Marcela Temer - Transcrito sem alterações)

http://www.conexaojornalismo.com.br/colunas/politica/brasil/bela-e-recatada,-marcela-temer-manda-povo-defecar-em-outro-lugar--73-44224


POR QUE TEMOS QUE IR ÀS RUAS
DEFENDER O ÓBVIO?

Recentemente em entrevista no exterior, o autor Wagner Moura fez críticas ao processo político e ao Golpe em andamento. Mesmo sem citar a palavra proibida foi muito criticado porque segundo os golpistas está destruindo a imagem do Brasil no exterior. Só que não é o artista quem destrói a imagem do país lá fora, são as VERDADES que ele disse e que estão escandalizando cada estrangeiro ao ponto de um brasileiro escrever ontem para mim direto de Lisboa: "O que está acontecendo no Brasil para um Ministro da Educação aceitar e REMUNERAR um ator pornô, como Alexandre Frota para ficar no lugar de Paulo Freire nos fundamentos ideológicos da educação?"  Eu não sei como explicar que três ministros já foram retirados do cargo por envolvimentos em corrupção e Lula não ter sido aceito, sem nenhum processo. Eu não sei como explicar o próximo ministro no lugar do que caiu, ser dono de um helicóptero repleto de cocaína e NUNCA TER SIDO INVESTIGADO. Eu não sei como explicar a pasta dos Direitos Humanos ter caído para ser anexada à Justiça e o tal ministro dar noventa dias de cessar trabalhos neste setor, enquanto um policial em Poá joga gás de pimenta direto no rosto de um adolescente menor de idade, dentro de uma escola ocupada, sendo que o garoto já estava no meio de outros, no chão ileso, indefeso e num canto espremido com policiais por trás e pela frente em maior número do que eles. Eu não sei como explicar o interino ter sido capaz de não aumentar os pequenos valores aos beneficiários do bolsa família, que Dilma deixou assinado, e dar um aumento astronômico para todos os servidores do judiciário. Eu não sei como explicar que o Minha Casa Minha Vida, sonho de milhares tenha acabado, enquanto nas ruas de São Paulo, morre-se de frio, por conta do inverno gélido em pleno Outono. Eu não sei como explicar que o Ministro da Saúde tenha dado um prazo para remédios populares até agosto, ambulâncias do SUS para deficientes até mesmo mês e ter assinado isenção de pagamento às Mantenedoras de planos de Saúde aos cofres do SUS, ao mesmo tempo em que permite que os Planos aumentem em até vinte e cinco por cento. Eu não sei como explicar uma Presidente eleita por cinquenta e quatro milhões de votos, sem processo, sem delações premiadas (só suposições, sem fundamentos), sofrer um Impeachment por pedaladas, empréstimo pago no mesmo ano em que pedalou. Enquanto o interino consegue pelo voto dos deputados aumentar a Meta fiscal e fazer gigantesca pedalada para o futuro. Gastar sem sequer saber ao certo se seria preciso mesmo tanto dinheiro em questão. Eu não sei como explicar este desejo insano de vender nosso Pré Sal aos norte americanos. Eu não sei como explicar a privatização de vinte e cinco parques turísticos e últimos resquícios de uma Mata Atlântica no Estado de São Paulo, terras que são demarcadas para indígenas, como aqui no Jaraguá. Digam vocês que tudo sabem: POR QUE TEMOS QUE IR ÀS RUAS DEFENDER O ÓBVIO?

Liz Rabello



MASSA DE MANOBRA


A Rede Globo lançou o furor.  O PSDB  arquitetou e se uniu aos outros partidos,  mas a elite sempre soube por que foram às ruas pela segunda vez. A primeira em 1964, na Marcha da Família. Para eles se "safarem" das próprias corrupções é o bastante. A classe média quer chegar ao topo e rastejam atrás da elite.  São os famosos "coxinhas", comem do mau a pior e arrotam "caviar".  Apoiar a venda da Petrobrás, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, privatizar as Estatais sempre foram os objetivos do PSDB, partido que defendem. Agora já conseguiram, inclusive que o BNDES "empreste dinheiro" para empresas privadas adquirirem suas próprias estatais. Modo tucano de desgovernar o nosso país. Para eles, o estilo Maria Antonieta, que a Marcelinha veste muito bem é o que importa. Para eles, as viagens a Disney com seus filhos é o que importa. Para eles, as viagens de compras a Miami é o que importa. EUA por trás do Golpe???? Que é que tem. Não vem ao caso! Sempre foram vira latas rastejando ao redor do mais forte! Agora que se danem os pobres sem teto, sem terras, sem SUS, sem remédios para Aidéticos, controlados pelo governo e gratuitos, aumento substancial aos Planos de Saúde, sem farmácia popular, sem escolas para deficientes, sem ambulâncias para todos,  sem universidades para pobres, através de cotas pela escola pública, sem PROUNI, sem ENEM, sem PRONATEC, aposentadoria só depois dos 75, ou jamais se morrer antes, sem décimo terceiro,   terceirização   ou  flexibilização para todos os trabalhadores, mordaças aos professores,  censura em sala de aula. Escolas apartidárias?  Ou com ideologias deles? Repressão às opiniões. Policiais militares tratando manifestantes como bandidos. Sem cotas em universidades para negros...  Aliás, o que já li: "Que voltem para a senzala, lugar de onde jamais deveriam ter saído!"... Incrível, pois esta frase foi escrita por um pobre coitado, coxinha mal  vestido e mal pago! Estes, é que são os verdadeiros MASSA DE MANOBRA, que não admitem que são, que não percebem, porque muita burrice viveu até então.

Liz Rabello
CONSTRUÇÃO E DESCONSTRUÇÃO DE  UM ÍDOLO

CAPAS DA REVISTA VEJA



JÁ CONTRA OS "SEUS" QUERIDINHOS TUDO SE COMPROVA CONTRA AS "VERDADES" DA VEJA




Primeiro de abril de 2016. Dia da mentira.  Muito apropriado ao momento político que vivemos.   Mas as mentiras da Veja não são tão recentes assim.  Senão vejamos.  

FIM DOS ANOS 80


Desde o penteado, à roupa, aos gestos, a Veja foi construindo um perfil encantador aos olhos dos  mais desavisados, aqueles que NÃO PARTICIPAM  DA CONSTRUÇÃO POLÍTICA DO PAÍS.  Não são os menos informados, já que diariamente se sentam em suas casas em frente à TV e ouvem atentamente os jornais falados.  São aqueles que compram jornais, como ESTADÃO, por exemplo e se informam sobre o que está acontecendo em suas regiões e no Brasil. São aqueles que se sentam à espera do dentista, do médico e aproveitam o tempo para ler as capas da Veja e caem feito gaiatos na falação da mídia, tornando-se os midiotas de plantão.  Esta cena é bem comum, ocorre inclusive nas escolas. Em cima da mesa dos professores, lá está a VEJA, gratuitamente distribuída em todos os estabelecimentos de ensino da rede pública.


A imagem de Collor era vinculada aos seus feitos heróicos desde político ao modo de vida próprio  da juventude, com saúde, esporte e lazer. Não raro, andando de bike, jogando tênis ou velejando pelo mar azul. Um modelo exemplar.  Enquanto isto Lula dividia o país com suas ideias de esquerda.  E a VEJA atacava o gordo, o operário, os "nove dedos", o analfabeto, o "cara" que não falava bem...
 

No último debate da Globo, ao qual assisti, Lula ganhou de mil por cento sobre as evasivas de Collor, mas foi rechaçado pela mídia que o classificou como perdedor antecipadamente.


Como era de se supor Collor ganhou  e somente aqui, na região Sudeste do Brasil. Nas últimas urnas abertas a vitória ocorreu numa virada dramática.  Ouvia-se nas bocas de urna que não deveríamos votar em Lula, porque nossa poupança seria confiscada e distribuída aos pobres.


EIS UM RESUMO DE SUA CAMPANHA


Só que a glória lhe subiu à cabeça  e o caçador de marajás, roubou pra si a ideia que havia vinculado ao Lula: confiscou a todos, pobres, ricos e remediados. E em lugar de dar aos pobres, deu pra si mesmo.



O  Impeachment não demorou a ocorrer, com o aval inteiro da nação.


DESDE A ELEIÇÃO DO LULA


UM HEROI É FABRICADO,  

ENQUANTO OUTRO É DESTRUÍDO


LULA NÃO É PRESO POR FALTA DE PROVAS,

 MAS É CONDENADO PELA MÍDIA QUE O DESTRUIU


QUESTÕES PARA SE PENSAR


NÃO FOGE À LUTA, MAS FOGE DA ESCOLA...

Nossa sociedade está cada vez mais sendo invadida por pessoas adultas que saem das escolas de Ensino Fundamental como analfabetos funcionais. Conhecem algumas letras e delas fazem uso para escrever tudo exatamente como "acham" e como "pensam" que é, seguindo regras próprias, que não fazem parte do contexto histórico da Língua escrita, aproximando a mesma da "fala" informal e recheada de curiosidades criativas do cotidiano.


O pior é ser a professora de Português destes "falantes" da língua, se corrige com caneta vermelha é AUTORITÁRIA e humilha o aluno. Se corrige com caneta da cor que o jovem usou, ele nem percebe que errou e questiona a nota, afinal acertou tudo! Se não corrige é alienada e não sabe dar aula. Se grifa embaixo dos erros, o aluno vocifera: "POR QUE VOCÊ FEZ ISTO?", além do que você ressalta o erro e o ajuda a gravá-lo na memória. Se utiliza a produção espontânea de um dos alunos para realizar correções ortográficas na lousa, estará constrangendo o criador, mesmo que você não diga quem é o autor. Ninguém se interessa pelos erros do outro, o trabalho rende pouco. Se pede para procurar as palavras no dicionário... Bem, cadê os mesmos? Ninguém trouxe... Se você pega da Sala de leitura e empresta, poucos realizam a tarefa, estragam os exemplares e esquecem de devolver. Aula acaba num piscar de olhos... Se não faz nada disto é porque é no mínimo alguém que não tem nenhuma vocação para ser professora. Se faz o que o Sistema prega: INTERVIR UM A UM com perguntas, esperando respostas, que nunca serão óbvias... FICA LOUCA!


Agradando ou não, de qualquer forma uma decisão o professor tem que tomar. Certa vez trabalhei junto com uma fonoaudióloga para intervir na aprendizagem de um rapaz de oitava série. Ela me enviava orientações de como melhorar a escrita dele. Uma de suas escritas me alicerçou no que já pensava. Se você apenas grifar a palavra incorreta, e não disser qual é a escrita oficial, estará veiculando e propagando o erro. Oras, a Língua é autoritária, manda dizer ao que veio, não há como fugir de suas regras. Afinal são anos a fio de construção sistemática de símbolos que a língua morta vai deixando para trás e que os falantes vivos vão construindo e repensando. Nada individualmente, mas no coletivo.  De vez em quando os Gramáticos se reúnem em grandes Simpósios e debatem correções entre todos os falantes e escritores mundiais daquela Língua para os Novos Acordos Ortográficos, aos quais meros mortais temos que nos "encaixar", aprender e usar corretamente, pois do contrário, perdemos a capacidade de nos comunicar através da escrita.

Em outra oportunidade, num Curso de Alfabetização e Letramento, que fiz pela Prefeitura Municipal de São Paulo, percebi que para um aluno aprender a escrita ortográfica oficial, é nosso dever apresentar a palavra nova, no mínimo SETE vezes, em diferentes situações. Captei a ideia e a trasnsformei em prática diária. 

1. São várias possibilidades de auto correção sistemática sem sequer o aluno saber que é este o objetivo. Retirada a palavra de uma produção espontânea, escrita corretamente na lousa, salientamos a regra oficial, por exemplo EXAME, é escrito com X. Não se misturam regras, porque na explicação de uma interferimos em outra.  Podemos em próxima oportunidade trabalhar a palavra CASAMENTO, mesmo som, porém S entre vogais adquire o som de Z. Em novo momento AZEDO, entre vogais, mas com Z.  Não há como fugir, os fatos se confundem, é preciso aprender e respeitar as regras. Palavra por palavra.  

2. Pode-se pedir aos alunos que façam uma lista de mais dez palavras escritas com a mesma grafia de EXAME,  por exemplo. Copiando-as do dicionário, de jornais ou revistas, do computador, fazendo pesquisas no google.

3. Palavras cruzadas, jogos de computador, sites como "RACHA CUCA" - PALAVRAS QUEBRADAS, onde podemos "brincar" com as palavras, transgredindo regras de criação. Uma ótima referência é o livro de Chico Buarque "Chapeuzinho Amarelo", onde a personagem central atira os MEDOS para fora de si mesma, quando cria o anagrama LOBOLOBOLOBOLO, que vira um BOLO, fofo de LOBO.  Depois disto, descobre que pode viver feliz e sem medos de DRÃOLA,  TROSMONS, e mais todos os medos que cada um dos alunos deverá escrever em seus registros.   

4. Podemos ler um texto, um conto, uma poesia,  onde a palavra em destaque na lousa escrita, cujo SIGNIFICADO esteja em evidência, possa ter o seu campo de contextualização ampliado. 

5. Do texto do aluno, podemos retirar uma, duas, poucas palavras de cada vez, para trabalhar a escrita correta. Este deve ser um trabalho individual. Procurar no dicionário a mesma, observar a escrita e escrevê-la corretamente no caderno. 

6. Durante produções espontâneas, o aluno deve ter a oportunidade de pedir explicações sobre palavras que porventura tenha dificuldades. A pergunta que se devolve: "Como é que você acha que deve ser escrito?" - Muitas vezes ficamos surpresos com a quantidade de vezes em que o aluno acerta.

7. O aluno deve ter a possibilidade de trabalhar a escrita da palavra em letra manuscrita, desenhada pedagogicamente, numa folha impressa em computador, num livro específico ou num caderno simples e barato de caligrafia. Na ausência destes suportes, o próprio caderno comum serve com o "modelo" do professor.  Basta a cópia atenta e caprichada, uma, duas ou três vezes, no máximo, que mais, cansa e desaprende. Nossa, que coisa mais quadrada! Enquadrada em modelitos?  Desculpe-me, isto é apenas um dos sete momentos, que eu não abro mão.

 Liz Rabello



"NOITE ESTRELADA" E OUTROS
 VAN GOGH CAPTURARAM A MATEMÁTICA CÓSMICA

(...) "Noite Estrelada", de 1889, no qual luz e nuvens fluem em espirais que parecem se mover na tela, com a turbulência que ocorre na natureza, em particular em fluidos e certos gases. A conexão tem uma história interessante, sendo inspirada por uma imagem de uma estrela tirada pelo telescópio espacial. (...) Os físicos descobriram que a mesma relação matemática descreve a turbulência vista na arte de Van Gogh, durante períodos de prolongados distúrbios mentais (...) explora uma propriedade conhecida como LUMINÂNCIA, que mede a intensidade do brilho em pontos diferentes de uma superfície, como a tela de um quadro. O olho é mais sensível à luminância do que a diferenças entre cores, o que explica o efeito que vemos em muitas telas dos impressionistas, em que as cores parecem brilhar com uma intensidade quase que mágica. Usando imagens digitalizadas dos quadros, os físicos calcularam a probabilidade relativa de que pixels na tela, separados por uma distância R, tivessem a mesma luminância. Com isso mostraram que Van Gogh (intuitivamente?) construiu imagens que obedeceram a uma lei de escalas em que o mesmo padrão de brilho é repetido em distâncias diferentes. Essa lei de escalas ocorre também na turbulência dos fluidos, nos quais rodamoinhos maiores doam energia para rodamoinhos menores, de modo que o mesmo padrão (os rodamoinhos) reaparece em escalas diversas, criando o fenômeno da turbulência. Durante seus períodos de maior sofrimento, Van Gogh capturou a essência da turbulência na natureza. Sua obra ilustra um arquétipo universal, em que o luminoso transcende a tela e o pincel do artista vira expressão do poder criador do cosmo.



Marcelo Greiser, in FOLHA DE SÃO PAULO, 19/04/2015





BUQUÊ  DE  LUAS


Federico Fellini falando sobre suas ideias na direção do filme “A VOZ DA LUA” afirma que “Os jovens assistem televisão 24 horas por dia, não lêem e raramente escutam. Esse incessante bombardeio de imagens desenvolveu uma condição de hipertrofia do olho que os está transformando numa raça de mutantes (...)”  Incapacidade de olhar para a lua e realmente vê-la! Em outra passagem nos diz que “O dilema moderno é a solidão. Nenhuma celebração pública ou sinfonia política pode esperar libertar-se. Apenas através dos indivíduos ela pode ser quebrada, pode uma mensagem ser passada, fazendo-os compreender a profunda ligação que une uma pessoa a outra. " Foi o que tentou expressar em seu filme "A VOZ DA LUA”. O homem não vive só, precisa do outro para conseguir criar um buquê de luas.


No filme, o personagem principal Ivo Salvini, recém saído de uma internação em hospital psiquiátrico, escuta uma voz e se convence que ela vem da lua, ao mesmo tempo em que a confunde com a voz da mulher amada.  Com a ajuda de dois outros lunáticos consegue capturar a lua e prendê-la num estábulo. Grandes telões rodeando a praça da cidade fazem a cobertura do evento. O apresentador/repórter lembra ao povo presente na praça e nas televisões que assistem de longe que o homem foi à lua, mas ninguém imaginava que Ela poderia vir à nós...” Veio e está amarrada e todos a olham incrédula, por vezes com medo e não mais com admiração.


Maria Lúcia Lopez falando sobre a criação da capa do livro Buquê de Luas, em POETAS DA PAULICÉIA, também fez várias viagens pelo Brasil e exterior fotografando luas em diversas fases, do Pacífico ao Atlântico, pelos mares do Mediterrâneo. Aprisionou-a em suas fotos e quando reveladas, a surpresa: Era a mesma lua em qualquer lugar que fosse  enquadrada, então a soltou e deixou-a livre para a imaginação poética de cada leitor.


Liz Rabello


BIBLIOGRAFIA

http://cinemaitalianorao.blogspot.com.br/2008/12/fellini-no-mundo-da-lua.html



UM POUCO DE POESIA DE ADELIA PRADO POR ELA MESMA
Liz Rabello


COM LICENÇA POÉTICA

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

"Uma das mais remotas experiências poéticas que me ocorre é a de uma composição escolar no 3º ano primário, que eu terminava assim:

"Olhai os lírios do campo. Nem Salomão, com toda sua glória, se vestiu como um deles..."

A professora tinha lido este evangelho na hora do catecismo e fiquei atingida na minha alma pela sua beleza. Na primeira oportunidade aproveitei a sentença na composição que foi muito aplaudida, para minha felicidade suplementar. Repetia em casa composições, poesias, era escolhida para recitá-las nos auditórios, coisa que durou até me formar professora primária. Tinha bons ouvintes em casa. Aplaudiam a filha que tinha "muito jeito pra essas coisas". Na adolescência fiz muitos sonetos à Augusto dos Anjos, dando um tom missionário, moralista, com plena aceitação do furor católico que me rodeava. A palavra era poderosa, podia fazer com ela o que eu quisesse."


A SERENATA

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele virá com a boca e mão incríveis
tocar flauta no jardin.
Estou no começo do meu dessespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela,se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

Adélia Prado



Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra


Adélia Prado


Vale a pena esperar, contra toda a esperança,

o cumprimento da Promessa que Deus fez a nossos

pais no deserto. Até lá, o sol com chuva, o arco-íris,

o esforço de amor, o maná em pequeninas rodelas,

tornam boa a vida. A vida rui? A vida rola mas não cai.


A vida é boa.


Adélia Prado


Em 1975, Drummond sugere a Pedro Paulo de Sena Madureira, da Editora Imago, que publique o livro de Adélia, cujos poemas lhe pareciam "fenomenais". O poeta envia os originais ao editor daquele que viria a ser Bagagem. No dia 09 de outubro, Drummond publica uma crônica no Jornal do Brasil chamando a atenção para o trabalho ainda inédito da escritora.  "Bagagem, meu primeiro livro, foi feito num entusiasmo de fundação e descoberta nesta felicidade. Emoções para mim inseparáveis da criação, ainda que nascidas, muitas vezes, do sofrimento. Descobri ainda que a experiência poética é sempre religiosa, quer nasça do impacto da leitura de um texto sagrado, de um olhar amoroso sobre você, ou de observar formigas trabalhando."


Em 1994, após anos de silêncio poético, sem nenhuma palavra, nenhum verso, ressurge Adélia Prado com o livro O homem da mão seca.  Conta a autora que o livro foi iniciado em 1987, mas, depois de concluir o primeiro capítulo, foi acometida de uma crise de depressão, que a bloquearia literariamente por longo tempo. Disse que vê "a aridez como uma experiência necessária" e que "essa temporada no deserto" lhe fez bem. Nesse período, segundo afirmou, foi levada a procurar ajuda de um psiquiatra.

"O que se passou? Uma desolação, você quer, mas não pode. Contudo, a poesia é maior que a poeta, e quando ela vem, se você não a recebe, este segundo inferno é maior que o primeiro, o da aridez."


O ano de 1978 marca o lançamento de O coração disparado que é agraciado com o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro.



Estremecerei de susto até dormir, e no entanto é tudo tão pequeno. Para o desejo do meu coração, o mar é uma gota.

Adélia Prado


FONTES BIBLIOGRÁFICAS

http://www.releituras.com/aprado_bio.asp



ALFABETIZAÇÃO... UMA BRINCADEIRA!
Fui alfabetizadora durante dezoito anos seguidos, num tempo em que meus filhos eram pequenos e, eles próprios vivenciavam estes momentos de primeiros contatos com a escrita.


Meu filho mais velho me deixou traumatizada por conta de que problemas familiares me fizeram optar por uma escola maternal para ele. Aos dois anos já estava frequentando o Colégio Pato Donald, que funcionava dentro do prédio do São João Gualberto, e, portanto, não era adaptado à crianças tão pequenas. Seus garranchos e rabiscos iniciais eram pautados de conceitos como “PÉSSIMO”, “SEM CAPRICHO” ou outros sinais de que quem o estava direcionando para os primeiros contatos com a alfabetização não tinha a menor ideia do mal que fazia para uma criança de dois aninhos. Se fosse hoje, eu o teria tirado daquela escola num piscar de olhos. Quando entrou para o ensino fundamental já estava farto de escola, carteiras, lousas, lápis e cadernos. Reagiu como alguém que não tinha capacidade para aprender. E tinha.



A diferença entre os irmãos é de oito anos. Minha experiência negativa com o mais velho, deixou-me cautelosa com o mais novo. Não o coloquei na escola maternal, mas sim bem mais tarde. No entanto, por não ter com quem deixá-lo em casa, muitas vezes eu o levava comigo para a sala de aula. Usava vários materiais para a aprendizagem dos meus alunos e um deles eram os cartazes da Caminho Suave, a Cartilha e os varais. Tinha um jogo velho que deixei em casa e o meu filho se apropriou para brincar. Um dia eu o peguei no fundo do quintal pendurando os cartazes no varal de roupas e ensinando as galinhas a ler:

RA RE RI RO RU RUA!
SUAS GALINHAS BURRAS!

Ri muito da cena. E fiquei meditando se eu também não usava de brincadeiras para com meus aluninhos pequenos da Rui Bloem, onde lecionava. Acredito que sim... Um deles vivia me dizendo: “Já estou ficando cafuso... É muita letrinha pra me torturar!”


É claro que a galinhas jamai aprenderam a ler, mas o Rodrigo, sim! De tanto ensiná-las, quem se auto alfabetizou, foi ele próprio. Certa vez me disse num repente: “Mamãe, eu sei ler.” Abriu a Cartilha Caminho Suave e leu: LATA. Havia o desenho da lata e eu menosprezei a leitura. “Oras, você leu a imagem” – E ele mudou a página. Desta vez leu DADO. E novamente deduzi que a imagem é que decifrava o código. Ele se irritou e leu SAPO... A mesma repetição dos fatos. Para me provar que sabia ler não mudou de página, apenas leu uma das palavras da lição do sapo: SALADA! Oras bolas e num é que era o SA do sapo, mais o LA da lata, mais o DA do dado???? Ele ficou realmente zangado e berrou: “Eu sei ler!” E leu a página toda e depois outras páginas, enquanto muito emocionada eu o beijava de alegria... pois jamais o ensinara, apenas o deixei brincando com todo aquele material de alfabetização. Quando aos quatro anos eu o coloquei na escola Chácara Mundo Feliz ele já sabia ler e escrevia muitas palavras que aprendera sozinho por seu próprio interesse. 



Isto me fez aprender a ensinar! E, principalmente a refletir sobre o que é que eu ensinava realmente quando queria ensinar algo que tinha em mente. Na verdade não é o conteúdo que importa, mas o MODO como fazemos o nosso trabalho.

Liz Rabello




Você,  Liz Rabello, é um exemplo mágico de magistério!

Aprendi minhas primeiras leituras sob a sua batuta. Como esquecer desta companheira inseparável - Cartilha Caminho Suave e dos textos que tínhamos de ensaiar em casa para depois lermos em sala de aula para toda turma em forma de campeonato? 

Sem contar que o microfone era feito de lata de molho de tomate e cabo de vassoura que nós mesmo produzíamos?

Sou grato até hoje por ter sido seu aluno. Desenvolvi leitura, oratória, escrita e principalmente caráter.

Seu dom é divino, sua energia emana e sua aura brilha como uma estrela no céu. Obrigado por existir e ter feito parte da minha formação moral e educacional.

Aluno: Cristiano de Oliveira Silva - Rui Bloem - turma 1981.






HOMENAGEM À MINHA MADRINHA NA ANLPPB:

 LUCIANA DIMARZIO


Conheci a Luciana Dimarzio quando ainda era uma ilustre desconhecida professora de Português e nem me sabia como escritora. Através de um projeto da escola que trabalhava, fiazendo pesquisas na Internet, eu e meus alunos, a descobrimos. Fiquei absolutamente encantada com seus poemas e com a beleza de suas imagens:


Ousei escrever para ela e quando nos aproximamos percebi que além de linda e excelente escritora era também um ser humano sensível e muito carinhosa e atenciosa.


Começamos a conversar in box no privado do face book e confessei a ela que estava lançando meu primeiro livro Mil Pedaços, pela Editora Beco dos Poetas.  Tempos depois ela me fez a proposta: “Que tal trocarmos nossos livros?” E eu recebi em minha casa, via correio, de presente esta maravilha!



Porque nunca aceitei amores feitos de concisão,
concebo a poesia como minha morada plena
e faço dos meus passos uma ventania.
Porque nunca contive a vida em seu tropel,
desprezo a lassidão dos verbos 
e faço dos meus dias um desencontro de rimas.
Porque é na crença das minhas cores que habita uma luz:
O que sou e penso nunca será corrompido pelo breu...

 Luciana Dimárzio


Saboreei o livro com a alegria da descoberta do belo: capa, cores, formato, palavras, ilustrações, tudo escolhido com o maior carinho e competência da própria Luciana Dimárzio.


Certa vez li uma referência a um Sarau Itinerante em Londrina que o Portal do Poeta Brasileiro estava realizando. Pedi a ela informações para que pudesse participar. A resposta caiu como um luminoso fogo de artifício clareando a vastidão da noite:  “ Quer vir para Londrina?” Aceitei e imediatamente entrei em contato com Aline Romariz para acertar coordenadas. E a surpresa chegou das mãos da presidente da Academia Nacional de Letras Portal do Poeta Brasileiro. Não era apenas uma simples participação, mas uma posse na Cadeira 93, que hoje ocupo neste lugar que costumo chamar de “FAMÍLIA”.

Recebi as condecorações da grande posse das mãos de Aline Romariz, porque minha madrinha não pode comparecer... 


Sei mais de mim
por tudo que renunciei;

umbrais que escorreram
em súbita fuga dos exilados...

Sei mais de mim
pelos passos que suspendi
(obediente a tudo
que desdizia meus caminhos).

Sei mais de mim
pelo suor que estanquei das mãos
enquanto vigiava a madrugada,

e por ter colocado na bigorna
toda minha insônia,
pedindo martelos sobre as ilusões.

Agora sei:
o que nunca fiz e nunca disse é o que me define.

Luciana Dimarzio

Só fui conhecê-la realmente durante um encontro em Campinas, noite de premiação do Troféu Wilson Carittas. Tiramos fotos e pude abraçá-la e agradecer por todo bem que me fez. 


OBRIGADA MADRINHA!



BIOGRAFIA EM VERSOS: ELISA LUCINDA
 “Todo capixaba tem
Um pouco de beija flor no bico
Uma panela de barro no peito
Uma orquídea no gesto
Um cafezinho no jeito
Um trocadilho na brincadeira
Um congo no andar
Um jogo de cintura
Um chá de cidreira
Uma moqueca perfeita
E uma rede no olhar.”


Negra de olhos verdes, Elisa Lucinda é uma brasileira de origem luso africana, nascida em Cariacica, no Espírito Santo,  um dos estados de maior diversidade étnica do país. Formou-se em jornalismo. Começou a escrever aos 17 anos se apoiando em poetas portugueses: José Régio, Mário Sá Carneiro e Fernando Pessoa. Nos últimos tempos tem escrito livros infantis. Sua presença enche o palco, atirando palavras simples cheias de paixão sobre as vivências cotidianas: tristezas, tesão, filhos, dores.
Aviso da Lua que menstrua

“Moço, cuidado com ela! 
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua
Imagine uma cachoeira às avessas: 
cada ato que faz, o corpo confessa. 
Cuidado, moço 
às vezes parece erva, parece hera 
cuidado com essa gente que gera 
essa gente que se metamorfoseia 
metade legível, metade sereia. 
Barriga cresce, explode humanidades 
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar 
mas é outro lugar, aí é que está: 
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita.. 
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente 
que vai cair no mesmo planeta panela. 
Cuidado com cada letra que manda pra ela! 
Tá acostumada a viver por dentro, 
transforma fato em elemento 
a tudo refoga, ferve, frita 
ainda sangra tudo no próximo mês.”


A poetisa, que em sua vida afetiva casou com dois psicanalistas em épocas diferentes, teve um único filho, Juliano, fruto da relação com um deles.
Aliança
“De alguma maneira hoje
Quero sempre me casar com você
Para mim este amor é diferente,
não é de papel passado,
É amor de papel presente.”

Mulher de muitas faces, várias vertentes e capacidades nata. Como atriz, tornou-se muito conhecida por seus papéis em novelas de televisão, representando a mulher brasileira: normas, divas, vilmas, ritas, selmas, pérolas do cotidiano, mulheres rebeldes, santas, vítimas, lutadoras!

· 2012 - Lado a Lado (Norma)
· 2011 - Aquele Beijo (Diva de Sousa)
· 2011 -  Insensato Coração (Vilma)
· 2009 - Viver a Vida (Rita)
· 2006 - Páginas da Vida (Selma)
· 2003 - Mulheres Apaixonadas (Pérola)
· 1995 - Sangue do Meu Sangue (Beatriz)
· 1990 - Escrava Anastácia (Ermelinda)
· 1989 - Karanga do Japão (Sueli)
· 1978 - Dancin'Days (Neide)

Como cantora e intérprete, Elisa fez em 2012 excursões com o show "A Letra que eu Canto", junto ao grande maestro e pianista, João Carlos Coutinho.

Quanto Mais Vela Mais Acesa

“Um dia quando eu não menstruar mais
vou ter saudade desse bicho sangrador mensal
que inda sou
que mata os homens de mistério
Vou ter saudade desse lindo aparente impropério
desse império de gerações absorvidas
Desse desperdício de vidas
que me escorre agora mês de maio.

Elisa Lucinda é considerada a artista da sua geração que mais populariza poesia. Seu modo coloquial de se expressar faz com que o mais complexo pensamento ganhe fácil compreensão. Junto com Geovana Pires ela criou a Companhia da Outra, grupo teatral que desenvolve sua linguagem de teatro essencial através da poesia.
Ensaio:

Nesse dia vou querer a vida
com pressa
menos intervalo entre uma frase e outra
menos respiração entre um fato e outro
menos intervalos entre um impulso e outro
menos lacunas entre a ação e sua causa
e se Deus não entender, rezarei:

Menos pausa, meu Deus
menos pausa.”
A arte de Elisa Lucinda quebra, subverte uma ordem. Tem o poder de fazer olhar o “natural” com outros olhos, “chocar” pela apresentação crua de um óbvio não percebido.
“Filho,
igualzinho à minha poesia
você nunca foi meu órgão
A arte é constante e me habita a hora em que ela quer e a hora que eu deixo
Mas não me existe combinada, não há contratos nem despejos
Você tem intimidade com meus interiores, com meus departamentos
Você é o argumento contra mim e a meu favor
Me trai, porque conhece o meu avesso,
Me enobrece, porque me tornou poderosa.
Capaz de prosseguir com essa invenção chamada humanidade
Você é a barbaridade de ter feito a minha barriga crescer, meu corpo zunir, abrir, escancarar pra você sair de onde eu nunca pus sequer os pés, as mãos, da casa em que vivo e habito sem nunca ter entrado porque moro fora de mim.”
(...)


Em poema ou na própria vida Elisa Lucinda se joga no “OUTRO”, para o “OUTRO”, como podemos observar em seu “Poema do Semelhante”

“O Deus da parecença
que nos costura em igualdade
que nos papel-carboniza
em sentimento
que nos pluraliza
que nos banaliza
por baixo e por dentro,
foi este Deus que deu
destino aos meus versos,

Foi Ele quem arrancou deles
a roupa de indivíduo
e deu-lhes outra de indivíduo
ainda maior, embora mais justa.”

A poetisa é fundadora da "Casa-Poema", instituição sócio-educativa cujo método capacita vários profissionais através da poesia falada, desenvolvendo-os em sua capacidade de expressão e na sua formação cidadã.

“Me assusta e acalma
ser portadora de várias almas
de um só som comum eco
ser reverberante
espelho, semelhante
ser a boca
ser a dona da palavra sem dono
de tanto dono que tem.”



A atriz, em parceria com a Organização Internacional do Trabalho tem desenvolvido o projeto "Palavra de Polícia, Outras Armas", onde ensina poesia falada a esses profissionais de segurança, alinhando-os aos princípios dos direitos humanos, removendo e transformando antigos modos operacionais em relação ao gênero e a raça.

“Esse Deus sabe que alguém é apenas

o singular da palavra multidão”

(...)

“O Deus soprador de carmas
deu de eu ser parecida
Aparecida
santa
puta
criança
deu de me fazer
diferente
pra que eu provasse
da alegria
de ser igual a toda gente

Esse Deus deu coletivo
ao meu particular
sem eu nem reclamar
Foi Ele, o Deus da par-essência
O Deus da essência par.
Não fosse a inteligência
da semelhança
seria só o meu amor
seria só a minha dor
bobinha e sem bonança
seria sozinha minha esperança”

Em 2012, foi homenageada pela escola de samba Independentes de Boa Vista, do Carnaval de Vitória, a qual se localiza no município onde nasceu, Cariacica. E foi com o enredo  “Vida em poesia... A lira que é Lucinda”, que a agremiação com 1,8 mil integrantes, divididos em 17 alas e quatro carros alegóricos, com um samba  em homenagem à atriz, poetisa e escritora, entrou na avenida. 
(...)
A poesia partiu, cruzou os mares e foi morar
Mostrado em versos e prosas
Varal na cidade maravilhosa
Agora o estrelato é na televisão
Apaixonada é Pérola mulher
Reviver Kananga do Japão
Amor materno é ter sensato coração
É linda criação Casa Poema
O brilho dos teus olhos entra em cena
O nosso orgulho é você
Brilha de Cariacica para o mundo
Negra mulher guerreira genial
Que a Lira anuncia é Carnaval
Nas cores do meu pavilhão
A lua saiu, o céu se enfeitou
Para ver a minha Boa Vista mais linda
Poema de amor Elisa Lucinda!

Elisa Lucinda e Geovana Pires criaram a Companhia da Outra, grupo teatral que desenvolve sua linguagem de teatro essencial através da poesia. Convidada pela Funarte para representar o Brasil no Ano Brasil-Portugal, a artista realizou uma turnê em cinco cidades daquele país a partir de outubro de 2012. Na sua volta ao Brasil, recebeu um convite da presidenta Dilma Roussef para ser mestre de cerimônia, junto com o ator José de Abreu, na Ordem do Mérito Cultural, em Brasília.
Além de conhecida pelos seus inúmeros espetáculos e recitais em empresas, teatros e escolas de todo o Brasil, Lucinda é admirada pela marca inconfundível de seu trabalho como atriz de telenovelas. Também premiada no cinema pelo filme A última Estação, de Marcio Curi, no qual protagoniza o personagem Cissa.
SEUS PRINCIPAIS LIVROS:

· A Lua que menstrua – Produção Independente – 1992
· Sósia dos sonhos - Produção independente
· O Semelhante - Ed. Record 1a ed. em 1995
· Eu te amo e suas Estréias - Ed. Record – lançado em 1999
· A Menina Transparente - Ed. Salamandra; (recebeu o Prêmio Altamente Recomendável, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ).
· Coleção Amigo Oculto - Ed. Record. Composta pelos livros: “O órfão famoso” – 2002 / Lili, a rainha das escolhas – 2002 / “O menino inesperado” – 2002, “A Dona da Festa” - 2011
· 50 Poemas Escolhidos pelo Autor/ – Edições Galo Branco – 2004
· Contos de Vista – Ed. Global – 2005, primeiro livro de contos da autora.
· A Fúria da Beleza – Ed. Record – 2006, primeiro livro de adultos para colorir.
· A Poesia do encontro – Elisa Lucinda e Rubem Alves – Ed. Papirus – 2008
· Parem de falar mal da rotina – Ed. Leya – Lua de papel - 20101
· A Dona da Festa- Grupo Editorial Record/Galerinha Record -2011

CDs DE POESIAS

· Semelhante – sob o selo da gravadora Rob Digital
· Euteamo e suas Estréias - sob o selo da gravadora Rob Digital
· Notícias de Mim, com poemas da poeta paulista Sandra Falcone, participação de Miguel Falabella, direção e produção de Gerson Steves.O CD é resultado do espetáculo homônimo com roteiro e direção de Steves.
· Estação Trem - Música – Realização de Dakar Produções e Poesia Viva Produções. Criado especialmente para a comemoração dos 150 anos da Ferrovia para a Vale do Rio Doce. É o primeiro Cd onde Elisa canta. 2004
• CD “Ô Danada – primeiro cd pelo selo CCC – Centro Cultural Carioca.
1997 - Você Decide - episódio: Preconceito

CINEMA

· 1990 – Barrela... Mulher do Portuga (participação especial)
· 1994 -A Causa Secreta 
· 1997 - O Testamento do Senhor Napumoceno .... Dona Jóia
· 2001 - A Morte da Mulata .... Mulata
· 2002 - Seja o que Deus quiser
· 2003 - As Alegres Comadres ... Mrs. Rocha
· 2003 - Gregório de Matos

FONTES DE PESQUISAS BIBLIOGRÁFICAS
 http://www.vagalume.com.br/elisa-lucinda/consagracao-da-criatura.
htmlhttp://pt.wikipedia.org/wiki/Elisa_Lucinda
http://pensador.uol.com.br/poesia_de_elisa_lucinda/


 CORRENTE SANGUÍNEA


Nosso planeta é um mapa de desolação. Aqui, a água como recurso natural indispensável está acabando. O Rio Tietê, que corta nossa cidade por completo, é uma fonte de doenças, mal estar, putrefação e ausência de vida. Logo ali, ar saturado. Milhares de carros entopem a cidade, parados, de um lugar que não vai a lugar algum. Mais adiante, queimadas matam o solo fértil, nutrientes necessários à vida perdidos para além do tempo. Habitat natural de insetos, borboletas, abelhas completamente destruídos. Acolá, lavouras de milho, soja, frutas, legumes morrendo à míngua, por ausência de chuvas, que quando caem dos céus, em gotículas serenas já chegam como chuva ácida.

Acidez é a rota para nosso planeta, que cobra vida! O corpo humano é setenta por cento água. O planeta, mais... Porém a potável, que só ela é fonte de vida, é pouquíssima! Seu pequeno volume somado aos cumes de montanhas geladas, com o calor saturado e ampliado das contingências do consumo capitalista, lixo sem controle, camada de ozônio aumentando sua esfera, pobres placas de água doce se derretem e se transformam em salgada de mares e oceanos, que não aplacam nossa sede de viver!


O pior é que os seres humanos, os mais inteligentes dos animais, que tanto poderiam fazer para transformar em flores a corrente de sangue que corre em volta de nós, apenas promovem a guerra. Duelos destruidores por palavras, por ações, por armas nucleares, por bombas... Lágrimas de sangue em meu coração, quando tudo o que desejo é um pouco de amor... Um laço de união... Um coração de flor!

Liz Rabello



PASSEATA NA AVENIDA PAULISTA, DESCENDO A CONSOLAÇÃO ATÉ O VIADUTO DO CHÁ, À FRENTE DO GABINETE DO PREFEITO - DIA 20/05/2014


ALFABETO DO EDUCADOR

Amor nas agulhas de dor
Barcos à vela de papel jornal
Ciranda de ideias
Degraus de saber
Emaranhado de sonhos
Fios de esperanças
Giros ao sol
Há de existir
Ideias a mais para
Juntar os retalhos
Leituras e imaginação
Minutas de versos
Navios no Atlântico
Opulentas mensagens
Penhascos  transpostos
Quimeras soltas no ar
Raios de luz a cruzar
Sementes de sonhos encantar
Teimosia esperança suportar
Utopias e crenças costurar
Vivências tristes a superar
Eis o X da questão!
Pois nada, nem ninguém, retira de mim
De “nós”, amarrados em nós,
Esta gravidez de sonhar!

Liz Rabello



ESTA BANDEIRA PERCORREU TODA A CONSOLAÇÃO PASSANDO POR NOSSAS CABEÇAS, NUM IR E VIR ALEGRE E ACARICIANTE




UM GRITO ENGASGADO

Estamos em greve desde 23 de Abril de 2014, na Rede Pública Municipal. Desta vez nossos representantes sindicais da APROFEN e SINPEEM estão unidos como jamais estiveram. Diretores, Supervisores, Gestores, Coordenadores, Pessoal de Apoio e Professores irmanados num mesmo ideal: EDUCAÇÃO DE QUALIDADE. Poderíamos falar da violência, que sofremos diariamente, da obrigatoriedade de inclusão a qualquer preço, sem realmente se pensar em “condições” viáveis às crianças portadoras de deficiências, ao número grande de alunos por sala, ao desrespeito ao trabalho do professor, através de leis que nos obrigam à promoção automática de alunos incapacitados, à falta de recursos dentro do ambiente de trabalho e atendimento às crianças, adolescentes e adultos, que necessitam de fonoaudiólogos, psicólogos ou de qualquer outro especialista. Mas o espaço é curto e urgem necessidades, pois as críticas de pessoas, fora do contexto, nos colocam à margem da sociedade como lutadores sem causa.

Em minha carreira, bem longa por sinal, tenho participado de muitas lutas, greves, paralisações, manifestações. Algumas vitórias e muitas derrotas. O atual movimento vem pautado por uma adesão nunca vista. Penso que se trata de um grito contido. Em 2012, quando o governo KASSAB nos anunciou o acordo de volta ao trabalho, com parcelas de aumento a longo prazo para toda a categoria, cuja parcela está já prevista em 2014, (este aumento de que tanto HADDAD anuncia pela Imprensa), nós não aceitamos. Queríamos tudo naquela ocasião. Quando o Presidente do Sindicato, Cláudio Fonseca, nos instigou a voltarmos ao trabalho, numa evidente manipulação de votos, foi espezinhado pela categoria, que não o perdoou. Garrafas pet vazias, latinhas, o que mais estivesse à mão em disponibilidade, foram jogadas em cima do caminhão de som. Ninguém arredou pé do local por bem mais de horas depois, mesmo quando pelo microfone foi anunciado o fim da greve e a volta ao trabalho, com mãos vazias e uma espera interminável, por mais dois anos. O atual presidente do SINPEEM precisou sair do caminhão escoltado por policiais e a manifestação foi encerrada desta forma. Um grito engasgado no ar!

Em 2013, a greve foi encerrada com poucas reivindicações atendidas e muitas promessas, como, por exemplo, a de que os profissionais em fim de carreira teriam duas referências a mais. A Lei foi assinada em Janeiro de 2014, não no segundo semestre do ano passado como havia sido prometido. Porém, a regulamentação ainda tramita pela Câmara sem respostas reais para a Categoria, mas com algo bem definido: Só profissionais da ativa é que serão contemplados. Aposentados, não!

Nos anos noventa, durante o mandato de Maluf, a categoria sofreu um abalo terrível, por conta de que pelas leis da época, cinquenta e três por cento do orçamento deveriam ser repassados aos funcionários públicos em geral. Durante o governo anterior de Luíza Erundina, não foram possíveis aumentos melhores porque esbarravam nesta lei. Mesmo não sendo professora de matemática é fácil perceber que mais impostos cobrados da população reverteriam em maiores chances dentro desta porcentagem. Maluf não sabia disto. Aumentou os impostos assustadoramente e, quando sua equipe se deu conta, já estávamos em plena campanha salarial, primeiro de fevereiro, data base da época, com um aumento salarial de oitenta e um por cento, garantidos pelo pacote do mês. A toque de caixa, na calada da noite, foi assinada a lei de mudança: quarenta e poucos por cento apenas. Mas já era tarde demais. Uma lei não pode retroagir diante da ofensa aos direitos. Ficamos mais de dez anos sem aquele aumento, mas processos foram abertos e a maioria ganhos. Isto criou uma casta dos que tiveram sorte e outra de azarados que tudo perderam. Acabou com a isonomia que todos possuíam e que a categoria tanto lutou para ter. Na atual previdência privada dos funcionários públicos, não temos fundo de garantia ao término de nossas carreiras, mas em contrapartida o salário da ativa é o mesmo dos aposentados. E é esta isonomia que estamos perdendo. Uma longa série de mudanças ocorreram querendo retirar este direito pago ao IPREM, durante anos a fio. Abonos aos trabalhadores da ativa, que não são incorporados, aumento salarial para os que iniciam carreira, deixando de lado os mais antigos, são algumas das metas seguidas pelo governo, para fazer frente ao que desejam: criar um coletivo desigual, individualismo passivo, para que a luta não ocorra.

Diante deste quadro caótico fico muito feliz com o que vi ontem na Paulista e na Consolação, inteirinha tomada por profissionais da Educação. Um verdadeiro exemplo de cidadania e de conquista de dignidade. Emoção ao cantarmos o hino nacional brasileiro, acompanhados pela população, que por horas ficaram parados, boquiabertos, pasmos, celulares a mão, fotografando e filmando. Paulo Freire sempre falou deste exercício, que nos faz sentir-nos vivos! Mesmo que a Imprensa diga que éramos poucos, minta em defesa do sistema, nós, que lá estávamos, sabemos da verdade. E é pela justiça e pela verdade que devemos lutar!

Liz Rabello  -  21/05/2014




 “GRADES NA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA”
Nem sempre foi assim!

Foram tempos de lutas, como até hoje o são.  Tinha me aposentado em um dos cargos na Prefeitura de São Paulo. Imediatamente fui trabalhar no Estado, uma escola próxima, com muitos amigos em comum: Ítalo Betarello. O ano de 1993 foi marcado por um grupo de alunos muito especiais. Eram realmente bons, tanto na capacidade de reflexão crítica, como na escrita destes pensamentos inusitados. Não entendia como alunos tão competentes pudessem sofrer tanto descaso! Desde a gestão de Franco Montoro, nada havia sido feito de bom para a Educação do Estado de São Paulo. Muito sucateada e abandonada, a rede toda estava indignada. Começamos a greve por melhores condições em todos os aspectos e o apoio da população discente e docente foi total.

No entanto, o governo de Freury, (o mais truculento e violento que conheci, basta lembrar o que aconteceu no Carandiru), tomou atitudes extremamente hostis com os professores. Lembro-me especialmente de uma cena aterradora, em que cantávamos o hino nacional na Consolação, inteirinha tomada de professores, quando ouvimos a cavalaria e a tropa de choque chegando. Como não existissem lugares a fugir, nem se esconder, a palavra de ordem foi: Ajoelhem-se no chão e cubram o rosto e a boca para não ingerir gases, que costumavam jogar nos professores. Ilesos naquele momento, as tropas permaneceram nas quadras adjacentes e não invadiram a Consolação. Mas esta trégua não durou muito, pois na semana seguinte, quando ocupamos as ruas do Palácio dos Bandeirantes, o governador Fleury mandou a polícia reprimir violentamente a manifestação dos mestres e nossa chegada ao Palácio. Fomos massacrados pelas tropas de choque e cavalaria. Jogaram os gases. Apanhamos! Mulheres, grávidas, senhoras, todos tratados como bandidos. Os moradores abriram portões para que nos escondêssemos. Vinte e dois de Agosto de 1993. Três horas da tarde quando tudo aconteceu. Só consegui furar o cerco dos policiais por volta da meia noite e chegar ao meu carro andando quilômetros em fuga de cachorros e cavalos. Ao chegar em casa, a notícia grave: Minha sogra estava em seus últimos momentos de vida e queria ver a mim e meus filhos. Às três horas da madrugada, chegamos à Santa Casa de Misericórdia. Consegui dizer-lhe ao ouvido: “Estamos aqui, os três, como a senhora pediu” – Ela suspirou e morreu em seguida. Fiquei dois dias inteiros e esta noite sem dormir. Muito triste, em desalento.

Semana seguinte, a passeata na Avenida Paulista foi incrível. Mais de trinta mil professores de preto, simbolizando o luto pelo desrespeito da semana anterior. O resultado foi que a repercussão da mobilização provocou uma revolta tão ampla que não só levou à greve ao maior índice de toda a história das lutas da categoria (bem perto de 100%) como abriu uma crise que levou ao fim do predomínio político do PMDB (com base em um apoio popular) no Estado e no País. Esta foi a vitória! Mas antes dela ocorrer, vivemos setenta e nove dias de greve. E no final nove dias de ocupação. Sim, um grupo de professores se revesou por nove dias dentro da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, no Ibirapuera. Não fiz parte do pessoal que ficou lá dentro, após milhares de educadores entrarem à força dentro da propriedade sagrada, fazendo brincadeiras, subindo à mesa principal. Imitando com maledicência os nossos deputados estaduais. Enfim, ridicularizando principalmente a situação, que na época era o PMDB. Por volta das oito da noite, ao sair do local junto com companheiros, a tropa de choque chegou. Lembro-me que estava na rampa de acesso à porta principal. Nós nos deitamos no chão e os soldados pulavam os corpos sem parar. Meu coração parou de bater, quando me vi pisoteada pelo forte tropel. Mas não, foram passando por nós, sem pisar e pararam na frente do portão central. Com um enorme megafone chamando a todos para evacuarem o local. Seguravam os cachorros ao final da rampa. Passamos, tremendo, por eles. Ilesos. Um a um foram se retirando do local até que a porta se fechou por dentro, ali permanecendo os últimos grevistas radicais, amigos pessoais. Todas as noites após o trabalho na Prefeitura, enchia meu carro de amigos e íamos ao Ibirapuera levar provisões, comidas e água potável, sabonetes e escovas de dente e creme dental, roupas limpas. Enquanto algumas mulheres distraiam os vigias, pelas janelas eram enviados os suprimentos. Cantávamos em alto e bom som palavras de ordem que pudessem abafar sons de vidros quebrados para que pudéssemos mandar o que necessário fosse. Ao fim de três dias cortaram a luz, depois a água. E foi então que vi cenas lindas de muita integração e solidariedade. Baldes e baldes que vinham de longe e eram entregues de mão em mão, em filas indianas, um por um professores faziam chegar a água até quem precisava se banhar ou beber.



No final de semana, sábado de madrugada, por volta da meia noite, a ordem chegou. A tropa de choque avançou e obrigou a todos saírem de lá de dentro. A greve acabou, mas não o sonho. Muitas e muitas outras greves vieram, muitas outras greves virão! Semana seguinte as grades já estavam lá, como estão até hoje, impedindo que os eleitores tenham acesso ao local onde deputados estaduais fazem sua rotina de trabalhos em prol do particular e não do povo brasileiro.
Liz Rabello



Nunca me esquecerei de quando ocupamos a Assembléia Legislativa, por nove dias, durante o final da greve do Estado, em 1993, e este senhor: EDUARDO SUPLICY, esteve presente, na desocupação pacífica, embora com a tropa de choque, cavalaria e cachorros presentes, às três horas da madrugada, sábado para domingo, intermediando negociações, acalentando os professores grevistas, em passeata,antes do raiar do dia, pelas ruas desertas do Ibirapuera...

Liz Rabello




 “LIXO EXTRAORDINÁRIO” - VIK MUNIZ 


Quando Vik Muniz decidiu fazer um trabalho artístico em Gramacho, Rio de Janeiro, já era um artista consagrado... Nascido no bairro do Jaraguá, na capital paulista, de família pobre, era, ele próprio, um carregador de lixo e de compras no Super Mercado próximo de sua residência... Um dia, levou um tiro e o autor o indenizou com uma passagem para os EUA. Lá foi trabalhar num Museu de Arte Contemporânea, de gari... E resolveu ser artista... Utilizar materiais inusitados como açúcar, poeira, pasta de amendoim, arame, chocolate, doce de leite, catchup... E, é claro, o LIXO! Quando informou sua esposa sobre onde e o que pretendia fazer no Brasil, disse a ela, em tom jocoso, que iria para um lugar onde “tudo o que não prestava, inclusive as pessoas, lá estavam!”... Surpreendeu-se, no entanto, ao encontrar-se com homens e mulheres, jovens e velhos, alegres, dignos, respeitáveis cidadãos brasileiros. Sobrevoando de helicóptero sobre o local, observou a INVISIBILIDADE do Aterro Sanitário pelo poder estatal e pela sociedade civil... Os mesmos que consomem e produzem todo o lixo, cujo destino final, ninguém se atreve a refletir... Os flashes aéreos mostram o DESCASO, a COISIFICAÇÃO DO FATO E DO SER HUMANO... Observou que de longe, só se veem, só se enxergam OBJETOS, criando uma fusão entre o lixo acumulado e as pessoas que ali trabalham na separação do material reciclado. E é essa trajetória que começa a imprimir em sua vida uma mudança radical. Quanto mais se aproxima do aterro e de dentro dele, tem a possibilidade de olhar nos olhos de cada um que começa a entrevistar, as “COISAS”, vão se tornando “HUMANAS”: Seres que choram, amam, riem, se alimentam, têm família, sonham, tomam banho, escovam os dentes (sempre de forma precária), usam produtos de beleza e são seres belos... O fato de tirar fotos, entrevistá-los e extrair seu lado mais íntimo e pessoal, se impõe... E, então, Vik Muniz concebe sua idéia: subverte a experiência do sobrevoo... Se antes, enxergava  um cenário, que lhe fazia pensar na pior coisa que jamais havia visto... Agora, ele se afasta e vê a cena... Volta, enxerga o real, capta este lance significativo, amplia a câmera e usa a tecnologia a serviço da Arte: Foto, projeção, ampliação, criação pelos próprios catadores de lixo, modelos e artistas de seus próprios quadros! Deslocamento para resignificar o contexto. Novas fotos são realizadas... E o produto final: De longe, a imagem de pessoas, humanas, como realmente são... Ísis é agora uma linda mulher e Tião, Marat, revolucionário sonhador, tem a fé de mudar os destinos de Gramacho... Saíram do aterro, sem promessas de que não voltariam mais a trabalhar no local... E transformaram a não promessa em realidade... “Retratos do Lixo” foi vendido num leilão, em Londres, por 28 mil libras, o correspondente a setenta e quatro mil reais, sendo que uma parte foi revertida na Associação dos Catadores de Lixo... O Documentário, que foi indicado para o Oscar em 2011, chamou atenção da Comunidade Política Mundial e Brasileira e o aterro será desativado em 2012... E, os demais do país inteiro, terão o mesmo destino até 2014... Afirmam especialistas da UNESPCIÊNCIA, em sua revista. Ísis, em entrevista, aos repórteres, quando da exposição dos quadros, no MASP, afirmou: “Gostaram do meu perfil, do meu jeito”... Vik Muniz sabia que podia fazer aquele trabalho... Mas, jamais pensou em se envolver afetivamente com seus modelos: “Podia ser eu”, afirma, pois nasci de uma família pobre e os catadores de Gramacho me ensinaram a viver.” Tião, numa reportagem afirma que é amigo pessoal de Vik até hoje.  Quando uma nova experiência perpassa por nossos sentidos e mente, nada a retira de lá, e nossas ações se modificam também... Cabe a cada um de nós, agora, reverter e resignificar a ordem dos nossos costumes: Quem tem que fazer a separação do lixo doméstico e industrial? A resposta é simples, óbvia... Quem o produz! 


Liz Rabello



POESIA CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA


A vida sempre nos surpreende... Encontra-se em constante mudança. Vivemos uma época de novos valores. A era Gutemberg ficou para além do século passado. O livro impresso perece de morte? Diante de tantos livros digitais a resposta poderia parecer óbvia demais, até porquê nós nos pegamos a ler muito mais pela Internet do que dentro das folhas viradas. Há de se culpar o conhecimento que nos alça novos voos? Há de se querer voltar páginas de livros antigos? Há de se ter a sensação desagradável de vivermos lá atrás, na contramão do curso da História? É possível fugir ao próprio tempo?

Tenho o hábito de gostar do olho no olho, ir ao Banco, puxar uma cadeira e conversar com minha gerente. Diálogo honesto, sincero, nós nos tornamos amigas. Poderia ter telefonado? Afinal um celular à mão resolve tudo, com rapidez maior, mais eficiente. Mas nenhuma tecnologia substitui o diálogo de mãos que se apertam. Assim é com o livro. Meu olho desvendando letras, mistérios de outros corpos, de outras mentes, descobertas de sentimentos inusitados. No entanto, percebo nos adolescentes um desejo cada vez maior de se comunicar pela telinha. Passei pela experiência de observar duas jovens conversando pelo Face book... Até aí nada de novo, a não ser que estavam uma ao lado da outra, na mesma Sala de Informática, em dois computadores diferentes!

Espelho, espelho meu, quem é mais feia do que Eu? Não, nunca me achei feia, nem mesmo bela. Qual a visão de mim mesma? Por mim? Na ausência de espelhos, numa infância muito pobre, como conseguia me saber? Penso que sempre me vi pelos olhos úmidos de emoção de meu pai. Era puro amor, encantamento! A mais bela imagem refletida. Por suas palavras doces e elogios tinha uma fotografia de mim mesma muito agradável e segura. Sentia-me com pés no chão, mais brilhante como a mais bela estrela. Foi assim comigo, mas não é o mesmo com os mais jovens. Hoje o espelho substitui o olhar do outro.

No colégio em que trabalho existe um elevador. Às vezes é impossível usá-lo, porque fica parado no primeiro andar, para que os alunos possam mirar-se ao espelho. Fila indiana para a visita ao psicólogo: o complexo de Narciso em alta. Não são mais águas de um lago, são espelhos mesmo. Na impossibilidade, serve qualquer outro meio: o celular está de bom tamanho. Flashes e flashes no intervalo inteiro, por vezes até durante a aula, com direito a boquinhas de Angelina Jolie ou dedos em sinal de paz.

Cada meio de comunicação nascido revela forças interiores de outros meios. Percebo nos adolescentes que o celular é um brinquedinho, se fotografam, se escrevem mensagens, se procuram. Trocam celulares uns dos outros, para se “olharem” mutuamente. Um ao lado do outro. Pego meus meninos se alimentando de auto-imagem narcisista, muito mais do que se comunicando com os outros. O celular, o MP3, o tablet, são extensões de seus próprios corpos. O livro impresso é um elemento antigo. Representa o passado. E eles se vestem de presente.

Toda tecnologia nasce para nos inflamar de mais poderes. Supera limites do corpo humano. O tablet substitui o caderninho de notas, o teclado do computador substitui a máquina de datilografia, que por sua vez é uma possibilidade de extensão de dedos, que com o auxílio de canetas, lápis, cadernos escrevem nosso mundo interior. No entanto, nenhum programa de computador, nenhuma imagem, nada, absolutamente nada, existe sem o toque do ser humano. O homem é a essência! E neste fluxo, de dentro para fora de seu mundo interior está a poesia contemporânea.

Certa vez decidi trazer para a rotina da sala de aula poemas inéditos. Não dos mestres: Cecília Meirelles, Carlos Drummond, Pablo Neruda. Que poetas assim, tão conhecidos, já são declamados demais. O projeto da Escola era Humanizar o Jovem no mundo da Tecnologia. A proposta chegou rápida: Vamos pesquisar poetas anônimos. Descobrir caminhos novos. E num repente, junto com os adolescentes, Luciana Dimarzio, a minha frente:

“Brotam-me palavras
puras
cruas
nuas
para vesti-las a meu bel prazer
(fatigo-me das roupas emprestadas)”

Esta poetisa, cuja família está em primeiro lugar, mora em Campinas, São Paulo, e seu talento com as palavras se revela num maravilhoso livro de poemas e frases Reversos (in) Versos, pela Editora Braspor, publicado em Dezembro de 2012. Em março do ano seguinte já foi laureada com o prêmio Mulher Destaque na Literatura pelo CPAC (Centro de Poesias e Artes de Campinas). Em maio deste ano recebeu o prêmio Troféu Staff de Ouro 2013 pelo destaque cultural. Mas quando a conheci pela Internet, era apenas a Lu do Face book, a Luciana do Canto da Lu, com um Blog gostoso de ler, já mostrando um talento insuperável com as palavras, que a fez conquistar permanentemente a Cadeira número dois da Academia Nacional de Letras Portal do Poeta Brasileiro.

“Escrever é transformador. Sempre que me converto em palavras já não sou a mesma. A cada metamorfose, sinto-me não necessariamente melhor, porém mais inteira.”
(Luciana Dimarzio)

Assim procurando blogs é que descobrimos a talentosa poetisa Adriane Lima, que ocupa a Cadeira Cinco na Academia Nacional de Letras Portal do Poeta Brasileiro, em cuja simplicidade adolescentes encontram rios de ternuras:

Fiz um pacto com a Lua.
Engravido as palavras
Formas redondas e uterinas
De lá saem os poemas
Minha salvação e sina...

Adriane Lima

No entanto, não são todos os lugares do nosso imenso e desigual Brasil que são contemplados com equipamentos tecnológicos, de fácil acesso aos nossos jovens. Neste palco da indiferença, ressalto o trabalho valioso de Maria Alves Lamanna. Não é professora, nem sequer conseguiu cursar ainda uma universidade. Seu grande sonho! Mas suas ações demonstram o ser humano lindo que é. Mora na cidade de Rio Preto, em Minas Gerais, no pequeno povoado de São Pedro do Taguá, zona rural, onde a pobreza impera. Atriz, roteirista, escritora, compositora, escultora, poetisa e declamadora como ninguém o faz, tem um trabalho voltado para o Incentivo à Leitura: “Poesia Pra que te Quero”. Neste pequeno povoado, onde nasceu, criou uma biblioteca, contando com a solidariedade dos amigos. Hoje suas ações se encontram para além de uma leitura bem aprimorada pelas crianças, poetas, trovadores e escritores, pessoas humildes escrevem um novo destino.  Membro da ANLPPB, Cadeira Vinte, é representante do Núcleo do Portal do Poeta Brasileiro no Estado de Minas Gerais.

Quando pensamos riscamos um destino, quando falamos compartilhamos ideias, mas quando escrevemos nosso ato é de fato existente e não há como retomar o caminho. Se publicamos o outro toma posse de nossos pensamentos e uma grande teia de palavras se faz existir. O valor da tecnologia está nesta possibilidade de trocas rápidas, sem se falar de como é bem mais fácil o contato com as Editoras. Pelo menos por enquanto: o livro nunca esteve tão vivo como agora. Nem a poesia.

E se por um lado é possível salientar o valor da tecnologia, por outro, quem tem convivência com jovens sabe o quanto querem frequentar a Sala de Leitura dos colégios. Ficam de olhos extasiados procurando em livros poemas que gostam de ler, histórias que amam saber, amores que adoram descobrir.

Quem tem experiência com Saraus entre os jovens sabe muito bem que adoram apresentar poemas de própria autoria. Sentem-se mais seguros. Se fosse verdade que jovens não gostassem de ler, como se explica este fascínio pela escrita? Muitos adolescentes mantêm cadernos de poesias em rascunho, à moda antiga, escritos com desenhos em forma de corações. Qual a origem deste percurso? Os sentimentos: Amor sempre está em alta. Nunca morre!

Não sou

Maria Alves Lamanna

Não sou um soneto
Não sou uma trova
Sou um dedo de prosa
No meu caminhar
E assim vou andando
Tentando entender
No seu jeito de ser
O amor...
E o amar...
Não sou um soneto
Mas queria ser
O lirismo de Camões
Que mesmo em chamas
Seria um amor
De belas canções.


O ÓBVIO ANÔNIMO
TEXTO PUBLICADO NA REVISTA "DE OLHO NO FONTE" 
IDEALIZADA, DIAGRAMADA, ORGANIZADA POR LIZ RABELLO 




2 comentários:

  1. Liz, assim como gostei muito de seu livro Intervalos, mescla de poesia e prosa, estou adorando ler estes seus ensaios. Você é boa escritora em prosa e verso. Parabéns.

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  2. Comecei lecionar em 1989 Liz Rabello, e antes mesmo do meu primeiro dia em sala de aula, já estava em greve rss, acredite se quiser. Me lembro que tinha assinado um contrato e a diretora me disse que assim que a greve terminasse eu assumiria as aulas, e foi uma greve longa e participei de todas as assembleias, mesmo ainda não sendo professor. Li o texto que escreveu e me lembro bem dessa época, alguns amigos foram demitidos pelo Jânio Quadros por causa da greve de 1987, mas o que chamou a atenção me fez rir por aqui rsss, foi a cabeça da menina sua aluna, você vê o que é a cabeça da criança rsss, ela achou q devido ao seu choro exagerado por ter que responder processo administrativo, só podia ser porque sua mãe tinha morrido, e espalhou a notícia rssss! Ter dedicado esse primeiro texto político à minha pessoa é uma honra, você escreve muito bem, obrigado!! (Cícero Carlos)

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