ENSAIOS

LULA É UM LADRÃO


A classe dominante com aval da mídia, dos golpistas e do Judiciário mantém Lula preso sob a insígnia de que é o maior chefe de quadrilha de todos os tempos, de que é um verdadeiro corrupto. Correto. Concordo.

Realmente Lula roubou dos mais ricos e distribuiu aos pobres, aos menos favorecidos. Sua lista de feitos, durante seu governo, que o legitimizou na reeleição com mais de oitenta por cento dos votos é imensa.

Não há como refutar seu valor histórico. Não há como não aplaudir o que vivemos nos últimos vinte anos, comparando anos anteriores e agora os dois da era pós golpe, cujas leis assinadas por Aécio, Bolsonaro e companhia demonstram claramente quem é a favor ou contra o povo.

Não se iluda... Lula não está preso por corrupção contra os cofres públicos. Está preso por não atender aos desejos de continuidade do sistema de valorização do dinheiro concentrado numa minoria de mais ricos em detrimento de uma maioria entre os mais pobres.

Liz Rabello

Quando Luísa Erundina foi eleita para prefeita de SP, era impossível ganhar do Jânio Quadros. Ela ganhou. Quando estávamos há dois anos apenas lutando contra o Pinóquio e suas mentiras era impossível premeditar apenas 4% de votos pra ele. Quando o Doria ganhou não foi de verdade, foi um olhar errado do povo que se absteve e não saiu do muro.  Por esta razão tenho pavor ao voto em branco, porque aqui em Sampa, Dória se elegeu prefeito em primeiro turno com menos de um terço dos eleitores, por conta dos votos válidos.  Estamos no mesmo impasse:

39 milhões de abstenção, branco ou nulo
31 milhões Haddad
27 milhões outros candidatos
97 milhões não apostaram no fascismo
49 milhões apostaram
Somos maioria. Tenham esperança.
Liz Rabello

Vamos lutar. Vamos lutar até a vitória. Você conseguiria imaginar 11 candidatos do PSOL eleito? 55 do PT? Se olharmos por este prisma, vencemos esta eleição.


Mas se virarmos a página, nós a perdemos de antemão. Como poderíamos prever tanta gente saindo do armário e demonstrando tanto caráter sórdido, preconceitos de todos os tipos, contra gays, negros, pobres em geral. Xenofobia e volta do velho desejo de separação. Estamos diante de uma guerra civil.

"Apertar 13 na urna no segundo turno não vai fazer de vocês petistas, do mesmo jeito que apertar 45 e votar no Anastasia não vai fazer de mim tucana. A nossa questão agora é combater o fascismo, então a gente vai ter que votar e depois vai fazer oposição. Tá tudo bem. Voto não serve pra gente se orgulhar dele, serve pra tentar melhorar as coisas. Ou fazê-las menos piores. Quem gosta dos direitos humanos, quem tem uma pessoa LGBT na família, quem não quer ter medo de sair na rua, porque a pessoa do carro do lado vai estar armada, quem não concorda com a alíquota única de 20% no Imposto de Renda, que vai sobrecarregar pobres e classe média, quem acredita nos direitos das pessoas com deficiência, quem acha absurdas as ameaças de intervenção militar do Mourão, quem não quer colocar no poder alguém que defende torturador, vai ter que se unir e votar 13. Só assim vocês têm a garantia de que vão poder fazer oposição democrática ao governo eleito." 

Julia Lery

Decidir por #elenão e muito maior do que questões partidárias. É uma luta contra o fascismo e tudo que vem em decorrência dele. Votaria em qualquer candidato para não permitir essa aberração no poder.
 Analice Campos


JAIR BOLSONARO ESTAVA NESTE BANQUETE E VOTOU A FAVOR DA PEC 241
Aquela que congelou por vinte anos subsídios para Educação, Saúde e Cultura.
  
Brasil - (O banquete dos ratos!)
"Não me convidaram
Pra essa festa "pobre" (podre)
Que os homens armaram pra me convencer (aos coxas CBFs)
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascer"

Não vote em branco, não anule seu voto. Escolha! Participe desta luta. A participação nos atos de reivindicação de nossos direitos faz com que a gente tenha olhos abertos para o lado certo da História: O lado dos oprimidos.
 Liz Rabello


REFLETINDO COM MEUS BOTÕES

“No Brasil, artistas pensam que são pessoas importantes... Já precisei de médico, já precisei de professores, preciso de agricultores todos os dias, já precisei de mecânico, encanador, pedreiro e de muitas outras pessoas...  Mas eu nunca precisei de um artista!” (autor desconhecido)

Será? Pense comigo: Um professor para ser um dos bons, precisa fazer nascer a criança que há dentro de cada um de nós. Ter bom humor, ser capaz de ressuscitar o amor a cada pétala que se despedaça. Um bom encanador tem que ser criativo, fazer valer os melhores pontos para reduzir os caminhos distantes uns dos outros, mas separar definitivamente a água potável daquela fóssil. O médico tem que ser humilde o bastante para abraçar o artista palhaço amigo na hora exata em que os métodos de cura se esgotam e só a fé salva o paciente de uma morte dolorosa. Os agricultores precisam de todos os caminhos poéticos da vida para driblar as intempéries e fazer valer a colheita farta que nos mantém distantes da fome. Os pedreiros têm que ser os arquitetos artísticos cada vez mais eficientes em suas criações de moradias, terrenos em planícies são muito diferentes de morros inclinados, cortados pelo vento. Como pássaros indefesos vão descobrindo novas formas de driblar as correntes sanguíneas dos rios, das cascatas, dos desfiladeiros.  Somos todos arquitetos da vida e de nossas moradias neste Planeta. De repente, os transportes são inúteis, quebram. Os mecânicos com seus engenhos criativos nos oferecem novas saídas. Pense, reflita:  Quem vive sem a poesia?  Todos precisamos ser artistas até da palavra. 

Nós precisamos dos artistas, os seres mais importantes desta existência. Não servem para nada, só estão além da utopia: na caminhada.
Liz Rabello



PARA QUE SERVE A UTOPIA?


"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Eduardo Galeano


Agora, me responda: Você nunca precisou de Deus? Para que serve Deus na tua vida? Para mim ele é o maior artista que eu conheço. As telas mais lindas são aquelas pintadas por Deus!
Liz Rabello




HOMENAGEM AO AUTOR DO MÊS DE SETEMBRO DE 2018 - ANLPPB  MANOEL DE BARROS

UM ARTISTA DA PALAVRA COMO POUCOS!


MANOEL  DE  BARROS

Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em Cuiabá (MT), em 1916. Ainda novo, foi morar em Corumbá (MS) e mais tarde iria para o Rio de Janeiro, para fazer a faculdade de Direito. Viajou pela Bolívia e Peru, morou em Nova York, captou em cada um dos lugares por onde passava um pouco da essência da liberdade, que aplicaria em suas poesias. Apesar de ter publicado o primeiro livro em 1937, o “Poemas Concebidos Sem Pecado”, o primeiro livro que escreveu acabou nas mãos de um policial. O jovem Manoel fez a pichação “Viva o comunismo”, em um monumento, e a polícia foi em busca do autor da ousadia. Para defendê-lo, a dona da pensão em que vivia disse ao policial que o “criminoso” em questão era autor de um livro. O policial pediu para ver e levou o livro. Chamava-se “Nossa Senhora de Minha Escuridão" e Manoel nunca o teve de volta.


Formou-se em Direito, em 1941, na cidade do Rio de Janeiro. E já no ano seguinte publicou “Face Imóvel” e em 1946, “Poesias”.

Na década de 1960 foi para Campo Grande (MS) e lá passou a viver como fazendeiro. Manoel consagrou-se como poeta nas décadas de 1980 e 1990, quando Millôr Fernandes publicava suas poesias nos maiores jornais do país. 

Outros livros do autor são: ”Compêndio para Uso dos Pássaros”, de 1961, “Gramática Expositiva do Chão”, de 1969, “Matéria de Poesia”, de 1974, “O Guardador de Águas”, de 1989, “Retrato do Artista Quando Coisa”, de 1998, “O Fazedor de Amanhecer”, de 2001, entre outros. 


SUA POESIA TENTA CAPTAR O ÓBVIO

OUTRAS TANTAS, EM PROSA POÉTICA, CAPTA O INATINGÍVEL



DIFÍCIL FOTOGRAFAR O SILÊNCIO
(...)
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Por fim, eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski - seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.

 

TRATADO GERAL DAS GRANDEZAS DO ÍNFIMO

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.

Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

Alguns dos prêmios que o autor recebeu: “Prêmio Orlando Dantas”, em 1960, ”Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal”, em 1969. “Prêmio Nestlé”, em 1997 e o “Prêmio Cecília Meireles” (literatura/poesia), em 1998.



Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,
aves, pessoas humildes, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
entre pedras e lagartos.
Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto
meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou
abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que
fui salvo.
Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.
Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer da moral porque só faço
coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.

  Manoel de Barros foi fazer poesia com os anjos no dia 13 de novembro de 2014.


 A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta
Você vai carregar água na peneira a vida toda
Você vai encher os vazios
Com as suas peraltagens
E algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos
Manoel de Barros


Lendo este poema eu me lembro do meu tio Adonio, que me ensinou a amar Olavo Bilac, telas de Van Gogh, que me declamava no ouvido, bem baixinho: "Amai as estrelas, olhai para entendê-las"... Ele era um simples sapateiro. No meio dos sapatos velhos, cujas solas consertava, tinha muitos livros: Os Sertões de Euclides da Cunha, Guerra e Paz, de ‎Liev Tolstói, compêndios completos d' Os Miseráveis, de Victor Hugo, coleções completas de Machado de Assis, O Primo Basílio de Eça de Queirós, Angústia de Graciliano Ramos, todos os livros do mestre Jorge Amado... Conversar com ele, era glória! Ninguém mais culto do que aquele homem.
Liz Rabello

FONTES DE PESQUISA
http://pensador.uol.com.br/autor/manoel_de_barros/biografia/
http://manoeldebarros.blogspot.com.br/


O EITA FEZ ANIVERSÁRIO E QUEM GANHOU FUI EU...
Momento feliz. Ganhei um livro maravilhoso:
Fui sorteada pela frase do Mario Quintana
 e ganhei Manuel de Barros: Gramática Expositiva do Chão.

"O homem de lata é um passarinho de viseira não gorjeia..."

SUGESTÃO DE PROJETO EDUCACIONAL NUMA ESCOLA DE ENSINO FUNDAMENTAL

 


LEITURA DE POEMAS DE MANUEL DE BARROS.
CONSTRUÇÃO DE PLACAS COM POEMAS CURTOS.
COLOCÁ-LAS NUM JARDIM, APÓS SEMEAR E PLANTAR.
ORGANIZAR UM SARAU POÉTICO. 

 FOTOS DA INTERNET


Ama-me, é tempo ainda.
Hilda Hilst

Hilda de Almeida Prado Hilst, mais conhecida como Hilda Hilst, foi poetisa, ficcionista, cronista e dramaturga brasileira. É considerada pela crítica especializada como uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX.


5- I (De cigarras e pedras, querem nascer palavras) de Via espessa
De cigarras e pedras, querem nascer palavras.
Mas o poeta mora
A sós num corredor de luas, uma casa de águas.
De mapas-múndi, de atalhos, querem nascer viagens.
Mas o poeta habita
O campo de estalagens da loucura.
Da carne das mulheres, querem nascer os homens.
E o poeta preexiste, entre a luz e o sem-nome.

Hilda Hilst

Foi a única filha do fazendeiro de café, jornalista, poeta e ensaísta Apolônio de Almeida Prado Hilst e sua mãe, Bedecilda Vaz Cardoso. Em 1932, seus pais se separaram. Em plena Revolução Constitucionalista, Bedecilda mudou-se de Jaú para Santos, com Hilda e Ruy Vaz Cardoso, filho do seu primeiro casamento. Em 1937, Hilda ingressou como aluna interna do Colégio Santa Marcelina, em São Paulo, onde cursou o primário e o ginasial, com desempenho considerado brilhante. 


Em 1945, iniciou o curso secundário no Instituto Presbiteriano Mackenzie, onde permaneceu até a conclusão do curso. Em 1948, entrou para a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), onde conheceu aquela que seria sua grande amiga ao longo da vida, a escritora Lygia Fagundes Telles. 


Seu primeiro livro Presságio, publicado em 1950, foi recebido com grande entusiasmo pelos poetas Jorge de Lima e Cecília Meireles. Concluiu o curso de Direito em 1952. Depois da leitura do livro Carta a El Greco, do escritor grego Nikos Kazantzakis, Hilda decide afastar-se da vida agitada de São Paulo e, em 1964, passa a viver na sede da fazenda de sua mãe, próximo a Campinas, durante a construção da sua casa numa parte daquela propriedade. Em 1966, findos os trabalhos da construção, Hilda muda-se para sua Casa do Sol, lugar planejado detalhadamente pela autora para ser um espaço de inspiração e criação artística. Hilda Hilst viveu o resto de sua vida na Casa do Sol e nela hospedou diversos escritores e artistas por vários anos. Os escritores Bruno Tolentino e Caio Fernando Abreu foram hóspedes da Casa do Sol.

Do amor contente e muito descontente

Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Tenho me fatigado tanto todos os dias
Vestindo, despindo e arrastando amor
Infância,
Sóis e sombras.
Vou dizer coisas terríveis à gente que passa.
Dizer que não é mais possível comunicar-me.
(Em todos os lugares o mundo se comprime.)
Não há mais espaço para sorrir ou bocejar de tédio.
As casas estão cheias. As mulheres parindo sem cessar,
Os homens amando sem amar, ah, triste amor desperdiçado
Desesperançado amor… Serei eu só
A revelar o escuro das janelas, eu só
Adivinhando a lágrima em pupilas azuis
Morrendo a cada instante, me perdendo?

Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Preparo-me e aceito-me
Carne e pensamento desfeitos. Intentemos,
Meu pai, o poema desigual e torturado.
E abracemo-nos depois em silêncio. Em segredo.
– Hilda Hilst, no livro “Exercícios”. São Paulo: 
Editora Globo, 2001.

Hilda Hilst

Hilda Hilst escreveu por quase cinquenta anos, tendo sido agraciada com os mais importantes prêmios literários do Brasil. Em 1962, recebeu o Prêmio PEN Clube de São Paulo, por Sete Cantos do Poeta para o Anjo (Massao Ohno Editor, 1962). Em 1966, ao mudar-se para a Casa do Sol, passou a viver com o escultor Dante Casarini. Em setembro do mesmo ano, morreu seu pai. Dois anos depois, Hilda casou-se com Casarini (de quem se separa em 1980, embora continuassem a residir na mesma propriedade - Casa do Sol). 

Do amor contente e muito descontente

Tenho pedido a todos que descansem
De tudo o que cansa e mortifica:
O amor, a fome, o átomo, o câncer.
Tudo vem a tempo no seu tempo.
Tenho pedido às crianças mais sossego
Menos risos e muita compreensão para o brinquedo.
O navio não é trem, o gato não é guizo.

Quero sentar-me e ler nesta noite calada.
A primeira vez que li Franz Kafka
Eu era uma menina. (A família chorava).
Quero sentar-me e ler mas o amigo me diz:
O mundo não comporta tanta gente infeliz.

Ah, como cansa querer ser marginal
Todos os dias.
Descansem anjos meus. Tudo vem a tempo
No seu tempo. Também é bom ser simples.
É bom ter nada. Dormir sem desejar
Não ser poeta. Ser mãe. Se não puder ser pai.

Tenho pedido a todos que descansem
De tudo o que cansa e mortifica.
Mas o homem
Não cansa.
– Hilda Hilst, no livro “Exercícios”. São Paulo:
 Editora Globo, 2001.

Hilda Hilst

Em 1969, a peça O Verdugo arrebatou o Prêmio Anchieta, um dos mais importantes do país na época. No mesmo ano, a cantata Pequenos Funerais Cantantes, composta por seu primo, o compositor Almeida Prado, sobre o poema homônimo de Hilda, dedicado ao poeta português Carlos Maria Araújo, conquistou o primeiro prêmio do I Festival de Música da Guanabara.

Passeio

De um exílio passado entre a montanha e a ilha
Vendo o não ser da rocha e a extensão da praia.
De um esperar contínuo de navios e quilhas
Revendo a morte e o nascimento de umas vagas.
De assim tocar as coisas minuciosa e lenta
E nem mesmo na dor chegar a compreendê-las.
De saber o cavalo na montanha. E reclusa
Traduzir a dimensão aérea do seu flanco.
De amar como quem morre o que se fez poeta
E entender tão pouco seu corpo sob a pedra.
E de ter visto um dia uma criança velha
Cantando uma canção, desesperando,
É que não sei de mim. Corpo de terra.
– Hilda Hilst, no livro “Exercícios”. São Paulo:
 Editora Globo, 2001.

Hilda Hilst

A Associação Paulista de Críticos de Arte (Prêmio APCA) considerou Ficções (Edições Quíron, 1977) o melhor livro do ano. Em 1981, Hilda Hilst recebeu o Grande Prêmio da Crítica para o Conjunto da Obra, pela mesma Associação Paulista de Críticos de Arte. Em 1984, a Câmara Brasileira do Livro concedeu o Prêmio Jabuti, idealizado por Edgard Cavalheiro (1959) a Cantares de Perda e Predileção (Massao Ohno - M. Lydia Pires e Albuquerque editores, 1983), e, no ano seguinte, a mesma obra recebeu o Prêmio Cassiano Ricardo (Clube de Poesia de São Paulo). Rútilo Nada, publicado em 1993, pela editora Pontes, levou o Prêmio Jabuti como melhor conto. E, finalmente, em 9 de agosto de 2002, foi premiada na 47ª edição do Prêmio Moinho Santista na categoria Poesia.


A escritora ainda participou, a partir de 1982, do Programa do Artista Residente, da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP.


Assuntos tidos como socialmente controversos foram temas abordados pela autora em suas obras. No entanto, conforme a própria escritora confessou em sua entrevista ao Cadernos de Literatura Brasileira, seu trabalho sempre buscou, essencialmente, retratar a difícil relação entre Deus e o homem

Poemas aos Homens do nosso tempo

Amada vida, minha morte demora.
Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis, ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa RAPACIDADE
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes.

Ao teu encontro, Homem do meu tempo,
E à espera de que tu prevaleças
À rosácea de fogo, ao ódio, às guerras,
Te cantarei infinitamente à espera de que um dia te conheças
E convides o poeta e a todos esses amantes da palavra, e os outros,
Alquimistas, a se sentarem contigo à tua mesa.
As coisas serão simples e redondas, justas. Te cantarei
Minha própria rudeza e o difícil de antes,
Aparências, o amor dilacerado dos homens
Meu próprio amor que é o teu
O mistério dos rios, da terra, da semente.
Te cantarei Aquele que me fez poeta e que me prometeu

Compaixão e ternura e paz na Terra
Se ainda encontrasse em ti, o que te deu.

Hilda Hilst

Enigmática, estranha e instigante. Esses são alguns dos adjetivos que bem descrevem Hilda Hilst, um dos grandes nomes da Literatura brasileira e importante voz feminina em nossa poesia. 

“Como me sinto? Como se colocassem dois olhos sobre uma mesa e dissessem a mim, a mim que sou cego: isso é aquilo que vê, essa é a matéria que vê. Toco os dois olhos sobre a mesa, lisos, tépidos ainda, arrancaram há pouco, gelatinosos, mas não vejo o ver. É assim o que sinto tentando materializar na narrativa a convulsão do meu espírito, e desbocado e cruel, manchado de tintas, essas pardas escuras do não saber dizer, tento amputado conhecer o passo, cego conhecer a luz, ausente de braços tento te abraçar.”

Hilda Hilst

Hilda nasceu na cidade de Jaú, interior do estado de São Paulo, no dia 21 de abril de 1930 e faleceu em Campinas no dia 04 de fevereiro de 2004.  Após seu falecimento, o amigo Mora Fuentes liderou a criação do Instituto Hilda Hilst. O IHH tem como primeira missão a manutenção da Casa do Sol, seu acervo e o espírito de ser um porto seguro para a criação intelectual.


II (Colada à tua boca a minha desordem) de O desejo
Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo

Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

Hilda Hilst

Parte de seu arquivo pessoal foi comprado pelo Centro de Documentação Alexandre Eulálio, Instituto de Estudos de linguagem - IEL, UNICAMP, em 1995, estando aberto a pesquisadores do mundo inteiro e o restante, notadamente sua biblioteca particular, encontra-se na Casa do Sol, sede do Instituto Hilda Hilst - IHH

“Do muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua n’água.”
– Hilda Hilst, no livro “Sobre a tua grande face”.

Hilda Hilst

Alguns de seus textos foram traduzidos para o francês, inglês, italiano e alemão. Em março de 1997, seus textos “Com os meus olhos de cão”  e “A obscena senhora D” foram publicados pela Editora Gallimard, tradução de Maryvonne Lapouge, que também traduziu Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.

Dez chamamentos ao amigo

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

Hilda Hilst

Hilda Hilst dedicou boa parte de sua vida à Literatura, tendo deixado mais de quarenta livros publicados. Embora não tenha caído nas graças do grande público e da crítica, que considera ainda hoje seus textos herméticos, foi agraciada com os mais importantes prêmios literários do Brasil e admirada por grandes escritores, entre eles Caio Fernando Abreu e Lygia Fagundes Telles. 

6- VI (Que as barcaças do Tempo me devolvam) de Amavisse
Que as barcaças do Tempo me devolvam
A primitiva urna de palavras.
Que me devolvam a ti e o teu rosto
Como desde sempre o conheci: pungente
Mas cintilando de vida, renovado
Como se o sol e o rosto caminhassem
Porque vinha de um a luz do outro.
Que me devolvam a noite, o espaço
De me sentir tão vasta e pertencida
Como se as águas e madeiras de todas as barcaças
Se fizessem matéria rediviva, adolescência e mito.
Que eu te devolva a fome do meu primeiro grito.


Hilda Hilst

A temática de sua poesia circundou as ações humanas, a inquietude do ser, a morte, o amor, o sexo, Deus e indagações metafísicas, tema que a levou a flertar com a Física e com a Filosofia. Entre suas experiências literárias, esteve aquilo que ela chamou de “Transcomunicação Instrumental”, quando deixava gravadores ligados por sua chácara (a Casa do Sol, hoje Instituto Hilda Hilst) com o intuito de gravar vozes de espíritos, demonstrando assim sua clara preocupação com a sobrevivência da alma.



Testamento lírico

Se quiserem saber se pedi muito
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi
Na criança que fui, tão confundida.
À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.
O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras douradas. Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.
Eu era uma criança delirante.
Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.
O que vivia em mim, sempre calava.

E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo,
Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dócil.
Querer deixar um testamento lírico
E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.

Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Um dentre vós, resguardará (por certo)
A criança que foi. Tão confundida.

Hilda Hilst

CASA DO SOL

“Construída por Hilda Hilst há cinquenta anos nos arredores de Campinas, a Casa do Sol se mantém como uma espécie de arquivo orgânico da obra da escritora, poeta e dramaturga. Planejada nos mínimos detalhes como um espaço de criação, a grande residência se confunde com a sua vida e a sua obra. De lá, não param de sair surpresas. Facetas raras da autora, como poemas infanto-juvenis e outros em línguas estrangeiras, acabam de ser descobertas e podem aparecer em livro em breve.

Entre os achados, está ainda uma correspondência inédita com o artista plástico Mora Fuentes, amigo e responsável pela criação do Instituto Hilda Hilst, com previsão de publicação até o final do ano pela Editora Biblioteca Azul — que acaba de lançar “Pornô chic”, reunião dos escritos eróticos da escritora, e publicará no segundo semestre uma edição com sua poesia completa.

Mas o acervo reserva um outro segredo, pista indispensável para compreender o quebra-cabeça hilstiano. São suas misteriosas “conversas” com vozes do além, registradas em mais de cem horas de gravações, que estarão no centro do documentário “Hilda Hilst pede contato”.

Nos anos 70, depois de ter se mudado para a Casa do Sol, Hilda começou a gravar sinais de rádio tentando se comunicar com amigos e parentes mortos, fenômeno conhecido como trans-comunicação instrumental. Ela seguia os experimentos do cientista suíço Friedrich Jurgenson, que explorava o “ruído branco”, chiado eletromagnético emitido no espaço entre duas estações de rádio.

Hilda acreditava que esse som abafado escondia vozes de entidades incorpóreas. “Contato, contato, Hilda querendo saber de seus amigos da outra dimensão”, dirigia-se a escritora aos espíritos, esperando por uma resposta que chegava em palavras inaudíveis para a grande maioria das pessoas, mas suficientemente claras para ela.

A cineasta Gabriela Greeb adquiriu o direito dessas gravações e as transformou no leitmotiv de seu documentário, em fase de finalização. A voz de Hilda é o fio condutor da narrativa, que usa imagens raras do arquivo pessoal da autora, encontradas em cinquenta rolos inéditos de película Super 8 com registros de situações cotidianas na Casa do Sol, e algumas cenas ficcionais realizadas dentro da moradia com a atriz Luciana Domschke (no papel de Hilda).

Elemento importante do filme, o trabalho de som ficou a cargo do premiado francês Nicolas Becker, de filmes como “Gravidade” e “Batman begins”. Já a fotografia é assinada pelo português Rui Poças, que trabalhou no longa “Tabu”, de Miguel Gomes.
— A questão das fitas é o argumento para abordar a vida e a obra de Hilda, mais do que um tema em si — explica Gabriela. — É como se o filme todo estivesse gravado nestas fitas, uma realidade que se repete, em círculos, a casa e suas histórias.

Na verdade, tudo passa pela Casa do Sol, que se transforma num receptáculo de sons. A ideia é inverter esta situação original das gravações: aqui seria Hilda, já imortalizada, que busca contato com os vivos. Este dispositivo permite que o filme seja narrado na primeira pessoa, na voz da poeta.

Para a cineasta, Hilda tinha “uma necessidade gigante” de comunicação; como vivia isolada na Casa do Sol, com poucos leitores, optou por comunicar-se com os espíritos.”

GABRIELA GREEB
Diretora do documentário 'Hilda pede contato'

“Ela não se conformava com a morte; desde criança, não entendia como era possível que as coisas morressem, terminassem — lembra Gabriela. — Hilda buscava comprovar de maneira científica a imortalidade da alma. Passou a estudar física quântica no final de sua vida, ficou muito amiga do físico Mario Schenberg, com o qual passava horas discorrendo sobre temas como “luz interdita”, entre outros assuntos. Estava se preparando para ir para Marduk, planeta para onde, segundo ela, iam alguns mortos, aqueles que haviam constituído uma alma.

Em uma reportagem do “Fantástico” de 1979, Hilda abriu sua casa e mostrou suas experiências para o programa. Pela primeira vez, parte de suas gravações vieram a público — e voltaram ao esquecimento desde então. Pelo menos na reportagem, o conteúdo das fitas está longe de mostrar algo conclusivo; é provável que a exibição em um programa de grande audiência, em horário nobre, tenha aumentado ainda mais a fama de “louca” e “hermética” da autora junto ao público. Na entrevista, Hilda admite que nem mesmo alguns de seus amigos físicos levavam a sério a sua obsessão pelas vozes.

O que a Hilda diz durante o contato com os mortos é o mais interessante, pois as vozes respondem apenas “sim”, “hildinha”, ou pequenas coisas que realmente nunca sabemos se são elas que dizem ou se somos nós que ouvimos — especula Gabriela. — Esse espaço ínfimo e infinito entre o que uma pessoa fala e o que a outra pessoa ouve. O filme se localiza neste espaço, talvez. O imaginário, a literatura.

O fascínio pelo oculto é um fator essencial na obra de Hilda. A visão de uma bola de fogo em 1967, e de vários discos voadores nos anos seguintes, serviram como um catalizador de sua escrita (segundo um de seus amigos, especialista em OVNIs, as aparições a teriam “energizado”). “Sinto que tenho uma afinidade, uma vontade de pactuação com algo que eu desconheço, mas que faz parte do cósmico”, disse ela, em uma entrevista de 1986. “Eu acho que o meu caminho é sempre esse, o desejo de me irmanar com o inatingível para ver se descubro o sentido do que é existir”. Um vislumbre de sua relação com o inatingível também está nas trocas de cartas com Mora Fuentes. Batizada como “Cartas aos pósteros” e nunca antes publicada, a correspondência é uma das novidades preparadas pela Biblioteca Azul em 2015.

Hilda desenvolveu uma linguagem própria para as cartas, que não é nem a da poesia, nem a da prosa, nem a do teatro”

ANA LIMA CECÍLIO
Editora

“Hilda e Mora escreviam pensando mais no leitor do que numa forma de comunicação entre eles — diz a editora Ana Lima Cecílio. — Parece um desenvolvimento de um novo gênero, um pouco como a Hilda fez nas entrevistas: criar um personagem, desenvolver uma linguagem própria para as cartas, que não é nem a da poesia, nem a da prosa, nem a do teatro.

As novidades não param por aí, já que o Instituto Hilda Hilst, responsável pela preservação da Casa do Sol, começou em janeiro um inventário do arquivo, que prevê o cadastramento, a higienização e a digitalização de textos, entrevistas e imagens. Parte do material catalogado será usado no projeto Ocupação, do Itaú Cultural. Segundo Daniel Fuentes, filho de Mora e presidente do instituto, obras valiosas deverão vir à tona. Em prosa, ele destaca a descoberta de trechos de prosa datilografados que se assemelham a um diário. Já na poesia, há versos para o público infanto-juvenil (um deles escrito para o próprio Daniel Fuentes), improváveis poemas em inglês e alemão, e ainda paródias de outros poetas, como Adélia Prado e Ferreira Gullar.

— São poemas que ela escreveu para gozar outros poetas — detalha Fuentes. — É um trabalho fenomenal de linguagem, e engraçadíssimo.”
DANIEL FUENTES
Diretor do Instituto

 BIBLIOGRAFIA

http://notaterapia.com.br/2017/11/11/desejo-de-hilda-hilst-em-7-poemas-cintilantes/
https://oglobo.globo.com/cultura/livros/acervo-inedito-de-hilda-hilst-tem-cartas-poemas-gravacoes-com-espiritos-15072557
https://www.revistaprosaversoearte.com/8-belissimos-poemas-de-hilda-hilst/

GUILHERME DE ALMEIDA

Foto de Liz Rabello 

Guilherme de Andrade de Almeida nasceu em Campinas, 24 de julho de 1890, e morreu em São Paulo, 11 de julho de 1969. Foi advogado, jornalista, heraldista, crítico de cinema, poeta, ensaísta, tradutor, incentivador do teatro brasileiro.


Foi o primeiro modernista a entrar para a Academia Brasileira de Letras (1930).Terceiro ocupante da Cadeira 15, eleito em 6 de março de 1930, na sucessão de Amadeu Amaral e recebido pelo Acadêmico Olegário Mariano em 21 de junho de 1930. Recebeu o Acadêmico Cassiano Ricardo. Em 1958, foi coroado o quarto "Príncipe dos Poetas Brasileiros" (depois de Bilac, Alberto de Oliveira e Olegário Mariano). A essência de sua poesia é o ritmo “no sentir, no pensar, no dizer”. Dominou amplamente os processos de rimas, rítmicos e verbais, bem como o verso livre, explorando os recursos da língua, as onomatopeias, assonâncias e aliterações. 

Foto de Liz Rabello 

1917 – Nós – capa e ilustrações de Correia Dias, oficinas de "O Estado de S. Paulo" 

Vou partir, vais ficar. “Longe da vista,
 longe do coração”- diz o ditado.
Basta, porém, que o nosso amor exista,
para que eu parta e fiques sem cuidado.

Dentro em mim mesmo, o coração egoísta,
quanto mais longe, mais te quer ao lado;
tanto mais te ama, quanto mais te avista
e, antes de ver-te, já te havia amado.

Vou partir. Para longe? Para perto?
Não sei: longe de ti tudo é deserto
e todas as distâncias são iguais.

Como eu quisera que, na despedida,
quando se unissem nossas mãos, querida,
nunca pudessem desunir-se mais!

Da obra original “Nós” (1914-1917)

Guilherme de Almeida


Seu livro, "Era uma Vez", foi publicado em 1922, ano em que atuou na realização da Semana de Arte Moderna. 


Foi, com seu irmão, Tácito de Almeida (1889 - 1940), importante organizador da Semana de Arte Moderna de 22, tendo criado em 1925 conferência para difusão da poesia moderna, intitulada "Revelação do Brasil pela Poesia Moderna", que foi apresentada em Porto Alegre, Recife e Fortaleza. Um dos poemas de Guilherme de Almeida, "A Carta Que Eu Sei de Cor", presente em seu livro "Era uma vez", foi declamado na Faculdade de Letras de Coimbra, em 1930, na importante conferência "Poesia Moderníssima do Brasil" - esta conferência foi estampada na revista 'Biblos' (Faculdade de Letras de Coimbra, Vol. VI, n. 9-10, Coimbra, Setembro e Outubro de 1930, pp. 538 – 558; e no 'Jornal do Commercio', Rio de Janeiro, domingo, 11 de janeiro de 1931, página 3). 

A CARTA QUE EU SEI DE COR

E tu me escreves: - "Meu amor, minha saudade!
Há tanto tempo não te vejo: há quase um dia;
estou tão longe: do outro lado da cidade...
Tive sonhos tão bons esta noite! Vem vê-los:
ainda estão nos meus olhos loucos de alegria.
Sabes? Esta manhã cortei os meus cabelos.
Denunciavam-me tanto! E a ti também, meu poeta...
Que alívio! Tenho a sensação de haver cortado
relações com alguma amiguinha indiscreta.
Agora estamos mais a nosso gosto. Agora
o meu gosto será bem menos complicado
Para pôr o chapéu, quando me for embora...
Sinto-me tão feliz! Tive um riso sincero
ao meu espelho: e esse sorriso revelou-me
que o meu único mal é este bem que eu te quero..."
(...)
E quando chego ao fim da carta, sinto, vejo
que a minha boca toma a forma do teu nome:
a forma que ela tem quando vai dar um beijo...

Guilherme de Almeida

Foi um dos fundadores da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou Ciência Política.


No mesmo ano ajudou a fundar a revista Klaxon, tendo realizado sua capa, assim como os arrojados anúncios da Lacta. 


Participou do grupo Verde-amarelista e colaborou também com a Revista de Antropofagia, tendo escrito poemas-piada à moda de Oswald de Andrade.


Sossego macio da tarde.
Um sol cansado passa pelo rosto suado
uma nuvenzinha alva como um lenço
para enxugar as primeiras estrelas.
Silêncio.
E o sol vai caminhando sobre os montes tranquilos
vai cochilando.
E de repente tropeça e cai redondamente
sob a pateada dos sapos e a vaia dos grilos.


Elaborou também a capa da primeira edição do livro "Paulicéa Desvairada", de Mário de Andrade.


Na época heroica da campanha modernista, soube seguir diretrizes muito nítidas e conscientes, sem se deixar possuir pela tendência à exaltação nacionalista. Nos poemas de Simplicidade, publicado em 1929, retornou às suas matrizes iniciais, à perfeição formal desprezada pelos outros, mas não recaiu no Parnasianismo, porque continuou privilegiando a renovação de temas e linguagem. Sobressaiu sempre o artista do verso, que o poeta Manuel Bandeira considerou o maior em língua portuguesa.

APERITIVOS PARA VOCÊ DEGUSTAR

Somente quando ela perdeu suas asas
Soube que o que mais amava na vida
Era voar

Guilherme de Almeida, Azul e Outras Cores


Eu me afogo
No vazio do meu peito
E sigo em queda
No infinito constante de mim mesmo

Guilherme de Almeida, Azul e Outras Cores


Quanto mais eu digo
Que não sinto nada
Mais e mais eu me deixo
E desabo em um penhasco infinito
De puro sentimento

Guilherme de Almeida, Azul e Outras Cores


DESPERTAR

Todo o meu medo
Todo o meu horror
O frio
A dor

Toda minha angústia
E meu tormento
Do ócio ao ódio
Virando desprezo

Tudo parte de mim

E talvez
Nada esteja errado
E todo o mal que eu enxergo
Estava todo em mim
Enterrado

Guilherme de Almeida, Azul e Outras Cores


SINTA

Não há porque tentar
A fuga é inevitável
Todos os caminhos
Todas as escolhas
Nada pode evitar o único destino possível

Não importa o sentimento
Não importa o quanto doa
Você precisa fechar os olhos
Precisa viajar em você mesmo
Precisa saber
Não há porque mentir
Você precisa
Sentir

Guilherme de Almeida, Azul e Outras Cores


HAI KAI

Entre outras realizações, foi o responsável pela divulgação
 do poemeto japonês haikai no Brasil.

CHUVA DE PRIMAVERA

Vê como se atraem
nos fios os pingos frios!
E juntam-se. E caem.

Guilherme de Almeida

OUTUBRO
Cessou o aguaceiro.
Há bolhas novas nas folhas
do velho salgueiro.

Guilherme de Almeida

O HAIKAI
Lava, escorre, agita
A areia. E, enfim, na bateia
Fica uma pepita.

Guilherme de Almeida

NOTURNO
Na cidade, a lua:
a jóia branca que bóia
na lama da rua.

Guilherme de Almeida

HORA DE TER SAUDADE
Houve aquele tempo...
(E agora, que a chuva chora,
ouve aquele tempo!)

Guilherme de Almeida

OS ANDAIMES
Na gaiola cheia
(pedreiros e carpinteiros)
o dia gorjeia.

Guilerme de Almeida

QUIRIRI
Calor. Nos tapetes
tranquilos da noite, os grilos
fincam alfinetes.

Guilherme de Almeida

NFÂNCIA
Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".

Guilherme de Almeida

NÓS DOIS
Chão humilde. Então,
riscou-o a sombra de um vôo.
"Sou céu!" disse o chão.

Guilherme de Almeida

VISITA AO MUSEU CASA GUILHERME DE ALMEIDA


Guilherme de Almeida mudou-se para o local em 1946, um sobrado na rua Macapá, no Pacaembu, em São Paulo. Era chamado carinhosamente por ele como a "Casa da Colina". E ele a descreveu: "A casa na colina é clara e nova. A estrada sobe, para, olha um instante e desce". Nela, o poeta viveu até 1969 e nela faleceu. Lá, os saraus eram bem animados, como lembra o poeta Paulo Bonfim. Também estavam sempre presentes os amigos Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Victor Brecheret, Noemia Mourão, René Thiollier, Saulo Ramos, Roberto Simonsen, Carlos Pinto Alves e tantos outros.

Foto de Liz Rabello 


Foto de Liz Rabello 


Foto de Liz Rabello 


A casa, em 1979, tornou-se o Museu Casa Guilherme de Almeida, pertencente à Secretaria de Estado da Cultura do Governo do Estado de São Paulo, tendo sido "tombado como museu biográfico e literário" pelo Conpresp, em maio de 2009. O museu conta com importante acervo de obras de arte: quadros de Di Cavalcanti, Lasar Segall e Anita Malfatti, as primeiras edições dos livros do poeta, entre seis mil volumes no total, além de mobiliário, peças pessoais e relíquias da Revolução de 1932.

Foto de Liz Rabello 


COM TANTOS OBJETOS PESSOAIS O AMBIENTE RESPIRA VIDA E GUILHERME DE ALMEIDA RESSUSCITA AOS NOSSOS OLHOS  


Foto de Liz Rabello 

Foto de Liz Rabello 

Foto de Liz Rabello 


Foto de Liz Rabello 


Foto de Liz Rabello 


Foto de Liz Rabello 


Foto de Liz Rabello 


Foto de Liz Rabello 


Foto de Liz Rabello 


Foto de Liz Rabello 


Guilherme de Almeida foi responsável pelas traduções para o Português destas três obras importantíssimas para a cultura universal.

Foto de Liz Rabello 


Foto de Liz Rabello 


Foto de Liz Rabello 

Combatente na Revolução Constitucionalista de 1932 e exilado em Portugal, após o final da luta, foi homenageado com a Medalha da Constituição, instituída pela Assembleia Legislativa de São Paulo. Sua obra maior de amor a São Paulo foi seu poema Nossa Bandeira, além do Hino dos Bandeirantes - oficializado como letra do Hino do Estado de São Paulo - e da letra do hino da Força Pública (atual Polícia Militar do Estado de São Paulo). É proclamado "O poeta da Revolução de 32". Escreveu o poema Moeda Paulista, a pungente Oração ante a última trincheira, a letra do "Hino Constitucionalista de 1932/MMDC", O Passo do Soldado, de autoria de Marcelo Tupinambá, com interpretação de Francisco Alves. O poema treze listras em homenagem a bandeira do estado de São Paulo, que mais tarde foi feito o dobrado (música militar) treze listras do compositor e maestro Pedro Salgado.


Autor da letra do Hino da Televisão Brasileira, executado quando da primeira transmissão da Rede Tupi de Televisão, realizada por mérito de seu concunhado, o jornalista Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo. Dedicou-se ainda a outras artes e atividades, além da literatura e da poesia: desenhista amador, cultivou também a heráldica, tendo criado o brasão das cidades de São Paulo , Petrópolis (RJ), Volta Redonda (RJ), Londrina (PR), Brasília (DF), Guaxupé (MG), Caconde, Iacanga e Embu (SP).

Foto de Liz Rabello 

UM SONETO QUE EU DECLAMEI QUANDO MENINA 
NA ESCOLA ESTADUAL MANUEL DA NÓBREGA

Foto de Liz Rabello 

Quando a chuva cessava e um vento fino
franzia a tarde tímida e lavada,
eu saía a brincar, pela calçada,
nos meus tempos felizes de menino.

Fazia, de papel, toda uma armada,
e estendendo meu braço pequenino,
eu soltava os barquinhos, sem destino.
ao longo das sarjetas, na enxurrada...

Fiquei moço. E hoje sei, pensando neles,
que não são barcos de ouro os meus ideais:
são de papel, são como aqueles,

perfeitamente, exatamente iguais...
Que meus barquinhos, lá se foram eles!
Foram-se embora e não voltaram mais!

Guilherme de Almeida

Foto de Liz Rabello 

Agradecimentos à jovem Ana, que nos atendeu híper bem no Museu.  


FONTES DE PESQUISA

https://pt.slideshare.net/lanimedesudaisukianimeslovekpop/guilherme-de-almeida-primeira-fase-do-modernismo
Visita ao Museu Casa de Guilherme de Almeida - Rua Macapá, 187 - Perdizes

ESTÁTUA DE BRONZE DA MINHA SAMPA


IDÍLIO OU O BEIJO ETERNO

"Idílio ou Beijo Eterno" é uma escultura de William Zading, criada em 1920 e implantada na cidade em 1966, no Largo de São Francisco, em frente a Faculdade de Direito da USP. A escultura foi encomendada pelo Centro Acadêmico Onze de Agosto, em homenagem a Olavo Bilac.
Foto de Liz Rabello 

POEMA EM PROSA PARA UMA ESTÁTUA DE BRONZE

Bilac meu patrono na ALPAS
Desde cedo me fez estrelas amar
Versos seus meu tio a declamar
Em meus ouvidos a sussurrar
Também pelo Centro Acadêmico
Pelo sueco escultor William Zading
Se imortalizou numa estátua de bronze
O IDÍLIO ou O BEIJO ETERNO virou

Sabe-se pelo folclore urbano paulista
Que alunos de Direito
Sequestram estátuas
Para embelezar sua escola
Prova é o busto de José Bonifácio
Num nicho no hall de entrada do edifício
Mostra do velho ato vulgar
Mas que consegue obras de arte salvar

Na Faculdade São Francisco
Quem por ali põe os olhos
Sobre a estátua de bronze
Eternizando um beijo etéreo
Não imagina histórias de mudanças
Homem nu beijando índia?
Pode não, dizia multidão
Mas ali na Faculdade virou opinião!



Este bronze eternizou o ósculo
Da índia com o jovem francês
É uma das cinco peças de bronze
Que no final da Paulista, na década de 1920
Busto de Bilac no centro
Nas laterais, A Tarde, O Caçador de Esmeraldas,
O Beijo Eterno e Pátria e Família,
Representavam os escritos do poeta


 Foto de Liz Rabello

O IDÍLIO censurado por cidadãos de bem
Escreviam pros jornais
Escultura atrapalha o trânsito
Mão de Bilac mais parece
Pássaro de bico aberto
Homem nu abraçado à mulher?
Jovem francês beijando índia?
Pode não, dizia multidão!

Foto de Liz Rabello

Atendendo pedidos da população
Venceu a falta de informação
Do que é belo, e O BEIJO ETERNO  
Em 1936, a prefeitura
Desmontou a escultura
E jogou parte escandalosa
No fundo de um porão
E uma vez mais calou-se a multidão!
  
 Foto de Liz Rabello

Jânio Quadros, vinte anos depois
Ressuscitou a escultura
E o casal de namorados foi parar no Cambuci
Mas um pai indignado dizia que a imagem
Era um ataque aos olhos da inocente filha
Pode não, dizia a população
E a tal foi mandada pro porão
Só pra calar a multidão!


Dez anos depois, o prefeito Faria Lima
Resolveu aproveitar a inauguração
Dos jardins do túnel 9 de Julho
E por lá o casal de namorados
Ali podia se beijar em paz
Mas vereador ressuscitou velho sermão
Esta obra é coisa de demônio, pode não!
E será que ela vai de novo pro porão?

 Foto de Liz Rabello

Cansados de tanta polêmica,
Estudantes da Faculdade de Direito
Que lá no começo da história
Tinham pago e encomendado a obra
Resolveram cuidar do que era deles
Sequestraram o beijo transgressor
Fixaram a obra num endereço definitivo
Onde incompreendidos amantes se beijam até hoje!

Liz Rabello



IDÍLIO OU O BEIJO ETERNO

Na década de 10 do século passado, Olavo Bilac e sua campanha civilista chegaram a São Paulo e encontraram adeptos nas Arcadas. O movimento paulista, capitaneado pelo professor Vergueiro Steidel, fundou a Liga Nacionalista, que entre outras coisas pregava a instrução pública gratuita, o alistamento militar e diversas outras ações. A Liga teve destaque em grandes momentos da história paulistana, como quando da Gripe Espanhola e da Revolução de 1924, o que acabou lhe valendo a dissolução oficial pelo presidente Arthur Bernardes. Quando Bilac faleceu, em 1918, aos 53 anos, os membros da Liga Nacionalista, cuja direção e maioria dos membros eram estudantes e professores da Academia de Direito, e em menor número da Politécnica e da Faculdade de Medicina, resolveram fazer uma homenagem ao poeta. Após o levantamento dos fundos necessários, contrataram o escultor sueco William Zading, professor do Liceu de Artes e Ofícios, para esculpir um conjunto monumental em honra a Bilac. O monumento foi inaugurado em 1922, durante as comemorações do Centenário da Independência, pelo então governador Washington Luís.


BEIJO ETERNO
Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!
Fora, repouse em paz
Dormida em calmo sono a calma natureza,
Ou se debata, das tormentas presa, -
Beija inda mais!
E, enquanto o brando calor
Sinto em meu peito de teu seio,
Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,
Com o mesmo ardente amor!
De arrebol a arrebol,
Vão-se os dias sem conto! E as noites, como os dias,
Sem conto vão-se, cálidas ou frias!
Rutile o sol
Esplêndido e abrasador!
No alto as estrelas coruscantes,
Tauxiando os largos céus, brilhem como diamantes!
Brilhe aqui dentro o amor!
Suceda a treva à luz!
Vele a noite de crepe a curva do horizonte;
Em véus de opala a madrugada aponte
Nos céus azuis,
E Vênus, como uma flor,
Brilhe, a sorrir, do ocaso à porta,
Brilhe à porta do Oriente! A treva e a luz – que importa?
Só nos importa o amor!
Raive o sol no Verão!
Venha o Outono! do Inverno os frígidos vapores
Toldem o céu! das aves e das flores
Venha a estação!
Que nos importa o esplendor
Da primavera, e o firmamento
Limpo, e o sol cintilante, e a neve, e a chuva, e o vento?
Beijemo-nos, amor!
Beijemo-nos! que o mar
Nossos beijos ouvindo, em pasmo a voz levante!
E cante o sol! a ave desperte e cante!
Cante o luar,
Cheio de um novo fulgor!
Cante a amplidão! cante a floresta!
E a natureza toda, em delirante festa,
Cante, cante este amor!
Rasgue-se, à noite, o véu
Das neblinas, e o vento inquira o monte e o vale:
“Quem canta assim?” E uma áurea estrela fale
Do alto do céu
Ao mar, presa de pavor:
“Que agitação estranha é aquela?”
E o mar adoce a voz, e à curiosa estrela
Responda que é o amor!
E a ave, ao sol da manhã,
Também,. a asa vibrando, à estrela que palpita
Responda, ao vê-la desmaiada e aflita:
“Que beijo, irmã!
Pudesses ver com que ardor
Eles se beijam loucamente!”
E inveje-nos a estrela... e apague o olhar dormente,
Morta, morta de amor!...
Diz tua boca: “Vem!”
“Inda mais!”, diz a minha, a soluçar... Exclama
Todo o meu corpo que o teu corpo chama:
“Morde também!”
Ai! morde! que doce é a dor
Que me entra as carnes, e as tortura!
Beija mais! Morde mais! Que eu morra de ventura,
Morto por teu amor!
Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue: acalma-o com teu beijo!
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para minha vida,
Só para o meu amor!

Olavo Bilac

PESQUISA




http://almanaque.folha.uol.com.br/monumento_beijo.h


MINHAS FOTOS 




VIAJAR EM DIAS DE GREVE NÃO É FÁCIL

Tudo o que desejava fazer, estou realizando. Viajei para Cruz Alta sozinha. Desafiei todos os meus limites. Fui por Porto Alegre, pela Latam, através dos pontos da Multiplus. Desci no aeroporto e peguei um táxi até a rodoviária, onde tinha viagem paga e programada. Um veículo com assento leito. Híper confortável. Semi direto, com pouquíssimas paradas. Após sete horas de viagem, cheguei na rodoviária de Cruz Alta, onde peguei outro táxi direto ao maravilhoso Rosmer Palace Hotel. 




Cheguei inteiraça. Tomei um banho, arrumei os meus pertences e logo ouvi o telefone interno do hotel tocando. Era a presidente da Academia Internacional de Cruz Alta ALPAS 21, me pedindo pra descer. Fomos a um restaurante local, eu, ela e uma menina Argentina, que se tornou minha amiga imediatamente e não mais nos desgrudamos. 



TUDO ISTO SÓ PRA NÓS?



Foram três dias de muitas atividades, as quais me fizeram lembrar do passado, mas não com tristeza...Sozinha sou mais eu. Não passo por humilhações e não me senti rejeitada, muito pelo contrário. Fui abraçada, acolhida, bem tratada. O povo gaúcho é muito acolhedor. Foram pequenos gestos de acolhimento, como na noite de despedida, que fui a um churrasco na casa de amigos, onde tomei licor de laranja, colorido de azul aniz. Ficamos todos de rostinho corado e demos risadas mil.

Durante todo o trajeto de ônibus, de Porto Alegre a Cruz Alta, passamos por várias barricadas que demonstravam que a greve dos caminhoneiros iniciava a todo vapor. Bandeiras brasileiras hasteadas nas antenas dos veículos. Pelo que sabemos de greve, não existia a presença de Sindicatos, nem de elementos representantes dos trabalhadores rurais ou de responsáveis pelos caminhões. Na sexta-feira pela manhã, nas ruas paralelas ao Rosmer Palace Hotel, onde estava hospedada, a caminho do Clube Internacional de Cruz Alta, eis que me deparo com uma passeata de Caminhoneiros. Tratores dividiam as ruas com pesados transportes à óleo Diesel. 


que li nos vidros de três caminhões? "QUEREMOS INTERVENÇÃO MILITAR". Tive uma diarréia no mesmo instante psicológica e física. Entrei em uma loja pedindo socorro. Voltei ao ponto de partida, não sem antes tirar algumas fotos e observar que dos ônibus parados saíssem madames loiras, belas e perfumadas só para engrossar o movimento. Era uma palhaçada de gente que não combinava nada com nada. No meio deles estavam homens banguelas, de ásperas mãos, retrato vivo de empregados da lavoura, de uma zona rural como é toda aquela região. Outros, homens fortes, estes, sim, caminhoneiros, porém manifestoches, lutando por causa justa ao lado do patrão. Paradoxo do grevista que pede ao dono do poder, ao lado dele, uma intervenção militar que é justamente o trocadilho do momento: Usar a greve, que é um direito da esquerda, para fins políticos da direita torta.


Agora, a volta? Bem esta foi uma outra história que te conto a seguir. Uma maratona. Desde o princípio da programação da viagem, a volta tinha horários entre voo e transporte rodoviário que não se combinavam. Resolvi não usar os pontos da Multiplus e pagar por um voo da Azul. Decisão acertada, pois a Latam deixou muitos usuários sem transportes aéreos. Sairia de Cruz Alta com um carro particular de um rapaz que me cobraria pela viagem do hotel até o aeroporto de Passo Fundo. Na véspera, voltando de um passeio com a mesma pessoa, eis que lhe pergunto se já havia abastecido o carro. Perante a resposta negativa, fiz outra:  O tanque de combustível cheio é suficiente para ir e voltar? – Outra resposta negativa.  Alertei de que eu e meus filhos estávamos alarmados com a possibilidade de que eu poderia ficar pela estrada, no meio do nada, sem saber como voltar para casa. Disse-lhe que em São Paulo, já não havia postos abertos com combustível.  Imediatamente o rapaz foi abastecer o carro e não conseguiu encontrar nenhum posto aberto. Ao me dar a notícia de que não poderia assumir o compromisso de me levar ao aeroporto, me falou que me levaria à rodoviária para comprar uma passagem (caso tivesse). Lá fomos nós e conseguimos uma num ônibus intermunicipal, que sairia pela manhã do mesmo dia, onde tinha um voo a me aguardar, naquela tarde de domingo. Marcamos o horário que viria me buscar para levar-me ao aeroporto. Quase não dormi de preocupação. Acordei em tempo hábil, fechei a conta do hotel, paguei e fiquei esperando, esperando, esperando. Até que um funcionário do hotel chamou um táxi para mim.  Eu já havia pago na noite anterior pela carona que teria. Duas vezes o mesmo trajeto, mas cheguei a tempo na rodoviária para pegar o ônibus já quase partindo sem mim.  


Foi então que o motorista ao pegar minha bagagem e colocá-la no lugar adequado me deu a triste notícia:  “A senhora sabe que não vou para o aeroporto? Vou deixá-la na rodoviária de Passo Fundo. O aeroporto é longe e é provável que não haja táxis por conta de ausência de postos abertos”.  Gelei. Mas tomei a decisão acertada.  Entrei no ônibus. Foi um tour por mais de dez cidades pequeninas. Um entra e sai de crianças, homens simples, mulheres alegres e falantes, jovens indo para diversões domingueiras. Gostei da viagem, embora nenhum pouquinho confortável. 


No meio do caminho, eis que o céu se fechou de repente. O medo tomou conta de mim. E se cair uma tempestade? O que vou fazer no meio daquele deserto sem nada de nada?


Imediatamente eu me lembrei de uma frase que foi dita para mim numa das tardes de nossas atividades literárias:  "Nunca permitas que teu medo te domine, pois eis que ele acaba com as tuas forças"...  Não permiti!

As nuvens escuras desapareceram. Cheguei na rodoviária e consegui entrar em um táxi que me levou até o tão desejado aeroporto. Já sabia que a Azul cumpriria o voo até Campinas, mas retirara o translado à capital paulista, como fazem de hábito. Já combinara com meu filho que ele iria me pegar de carro. O combustível estava reservado para isto. Ao chegar no aeroporto, a surpresa. Tudo fechado: restaurantes, guichês. Somente eu e dois seguranças, que não sabiam me dar informações. Daí me desesperei até que vi uma senhora da limpeza, muito tranquila que me abriu a porta e me fez entrar. Disse-me que o único voo do dia programado era o meu e que os funcionários chegariam perto das três da tarde para o chekin e despacho de bagagens. O mesmo com o pessoal do restaurante. Por uma tarde tive um aeroporto só pra mim...  Quer mais? 

Liz Rabello



MASSA DE MANOBRA

A Rede Globo lançou o furor. O PSDB arquitetou e se uniu aos outros partidos, mas a elite sempre soube por que foram às ruas pela segunda vez. A primeira em 1964, na Marcha da Família. Para eles se "safarem" das próprias corrupções é o bastante. A classe média quer chegar ao topo e rastejam atrás da elite. São os famosos "coxinhas", comem do mau a pior e arrotam "caviar". Apoiar a venda da Petrobrás, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, privatizar as Estatais sempre foram os objetivos do PSDB, partido que defendem. Agora já conseguiram, inclusive que o BNDES "empreste dinheiro" para empresas privadas adquirirem suas próprias estatais. Modo tucano de desgovernar o nosso país. Para eles, o estilo Maria Antonieta, que a Marcelinha veste muito bem é o que importa. Para eles, as viagens a Disney com seus filhos é o que importa. Para eles, as viagens de compras a Miami é o que importa. EUA por trás do Golpe???? Que é que tem. Não vem ao caso! Sempre foram vira latas rastejando ao redor do mais forte! Agora que se danem os pobres sem teto, sem terras, sem SUS, sem remédios para Aidéticos, controlados pelo governo e gratuitos, aumento substancial aos Planos de Saúde, sem farmácia popular, sem escolas para deficientes, sem ambulâncias para todos, sem universidades para pobres, através de cotas pela escola pública, sem PROUNI, sem ENEM, sem PRONATEC, aposentadoria só depois dos 75, ou jamais se morrer antes, sem décimo terceiro, terceirização ou flexibilização para todos os trabalhadores, mordaças aos professores, censura em sala de aula. Escolas apartidárias? Ou com ideologias deles? Repressão às opiniões. Policiais militares tratando manifestantes como bandidos. Sem cotas em universidades para negros... Aliás, o que já li: "Que voltem para a senzala, lugar de onde jamais deveriam ter saído!"... Incrível, pois esta frase foi escrita por um pobre coitado, coxinha mal vestido e mal pago! Estes, é que são os verdadeiros MASSA DE MANOBRA, que não admitem que são, que não percebem, porque muita burrice viveu até então.
Liz Rabello/2017
“ROUBA MAS FAZ”

 

Você já deve ter ouvido esta expressão: “Rouba, mas faz”, famosa na atualidade por ser uma das frases folclóricas, que se atribui adjetivos ao multi processado político paulista Paulo Maluf. Na verdade, a origem da menção “qualificadora” é bem mais remota. Vem da eleição municipal de 1.957, em que Ademar de Barros disputava, como candidato a prefeito, o pleito no município de São Paulo. Seu adversário lançou o slogan “Ademar, rouba mas faz”! - Que “pegou”.  Sempre houve baixaria e sujeira em nossas campanhas políticas. Caricaturas e anedotas é o que nunca faltaram. Na campanha ao governo de São Paulo, Jânio Quadros e Adhemar escreveram uma página de insultos, ataques pessoais, de baixo nível. Na época não existia a palavra ‘corrupção’. O termo usado era ‘negociata’. O então candidato a prefeito, dizem, era muito bom em negociatas. O ‘rouba, mas faz’ teve sucesso no pleito. Os exemplos de como é prejudicial a corrupção, que desemboca na falta de escola, de hospital decente e de comida na mesa das pessoas, deveria ser de amplo conhecimento popular. Deste modo os incautos não venderiam mais o voto nas eleições ou não mais cairiam no conto do ‘rouba mas faz’.

“Quem não conhece?
Quem nunca ouviu falar?
Na famosa 'caixinha' do Adhemar.
Que deu livros, deu remédios, deu estradas.
Caixinha abençoada!"


Com cantigas, anedotas ou sei lá mais o quê, o certo é que o povo é massacrado com mentiras, pois afinal, se não rouba, o político faz mais. Assim é que deveria ser!


Uma das “tradições” da política brasileira é a do “rouba, mas faz”, sobre o governante que enfrenta denúncias de corrupção ao longo do mandato, mas é querido pelo povo por causa das obras que realiza. Ex-governador de São Paulo e ex-prefeito da capital paulista, Ademar de Barros (1901-1969) até hoje é identificado com esse “lema”. Entre o início de sua carreira como deputado estadual, em 1934, e sua cassação pelo regime militar, 32 anos depois, ele colecionou feitos administrativos, suspeitas de desvio de dinheiro público e muita polêmica.   Numa época, onde os meios de comunicação eram os jornais “O Estado de São Paulo” e o rádio, a serviço da classe dominante, não se sabe ao certo se as denúncias contra Ademar sobre corrupção realmente foram leais. Seu lema era "São Paulo não pode parar", que tempos depois seria reiterado por Paulo Maluf. Deste, não há dúvidas de que rouba, e não sei não, se realmente fez!


"Por onde passar a energia elétrica, passarão o transporte, o médico e o livro"

Jaraguá, um bairro de periferia da cidade de São Paulo, já foi muito importante no passado, por conta de sua ferrovia, construída pelos Ingleses, com o aval dos grandes fazendeiros, que utilizavam os trilhos para enviar ao porto de Santos e de lá para o exterior os frutos do trabalho árduo dos paulistas. Com o abandono das redes ferroviárias e o crescimento e investimento em rodovias, principalmente nas mãos de Ademar de Barros, cujo lema era “São Paulo não pode parar”, obras, como a construção da segunda pista da Rodovia Anhanguera e a segunda pista da Rodovia Anchieta, ambas pavimentadas e que se tornaram as duas primeiras rodovias brasileiras de pista dupla, foram realizadas. Adhemar seguiu uma tradição de antigos governantes paulistas, como Washington Luís, que dizia que "governar é abrir estradas".

A pavimentação de estradas, com asfalto e concreto, uma inovação na época, feita por Ademar, era malvista e criticada por muitos políticos, que a consideravam um processo muito caro. Muitos políticos da época entendiam que os recursos públicos estariam melhor empregados se fossem usados na construção de novas estradas de terra e na manutenção e conservação das estradas de terra já existentes. Ninguém pensava na melhoria e conservação das estradas ferroviárias.

Contudo, um outro slogan de sua campanha era a expansão da energia elétrica. Nos comícios de rua, Ademar de Barros prometeu aos moradores do Jaraguá a chegada da luz elétrica, muito precária em vários pontos. Campanha realizada, povo crente, até subiram os caminhos tortuosos do morro do Jaraguá até o Pico com velas, à meia noite, em ato de jejum e de fé, a favor da vitória do homem que roubava, mas fazia. Com tanta garra, claro que o candidato venceu as eleições. Tomou posse e nada.  A luz elétrica não vingava.  O povo indignado não teve dúvidas. Lançaram mão de uma luta que até hoje a gente faz. Organizaram uma caminhada até os Campos Elíseos.  Saíram de trem e chegaram ao entardecer à luz de velas, numa enorme Passeata das Velas. Tanto gritaram que não demorou muito a luz se acendeu!
Liz Rabello


ALFABETIZAÇÃO... UMA BRINCADEIRA!



Fui alfabetizadora durante dezoito anos seguidos, num tempo em que meus filhos eram pequenos e, eles próprios vivenciavam estes momentos de primeiros contatos com a escrita.
  
Meu filho mais velho me deixou traumatizada por conta de que problemas familiares me fizeram optar por uma escola maternal para ele. Aos dois anos já estava frequentando o Colégio Pato Donald, que funcionava dentro do prédio do São João Gualberto, e, portanto, não era adaptado à criança tão pequena. Seus garranchos e rabiscos iniciais eram pautados de conceitos como “PÉSSIMO”, “SEM CAPRICHO” ou outros sinais de que quem o estava direcionando para os primeiros contatos com a alfabetização não tinha a menor ideia do mal que fazia para uma criança de dois aninhos. Se fosse hoje, eu o teria tirado daquela escola num piscar de olhos. Quando entrou para o ensino fundamental já estava farto de escola, carteiras, lousas, lápis e cadernos. Reagiu como alguém que não tinha capacidade para aprender. E tinha.




  A diferença entre os irmãos é de oito anos. Minha experiência negativa com o mais velho, deixou-me cautelosa com o mais novo. Não o coloquei na escola maternal, mas sim bem mais tarde. No entanto, por não ter com quem deixá-lo em casa, muitas vezes eu o levava comigo para a sala de aula. Usava vários materiais para a aprendizagem dos meus alunos e um deles eram os cartazes da Caminho Suave, a Cartilha e os varais. Tinha um jogo velho que deixei em casa e o meu filho se apropriou para brincar. Um dia eu o peguei no fundo do quintal pendurando os cartazes no varal de roupas e ensinando as galinhas a ler:

RA RE RI RO RU RUA!
SUAS GALINHAS BURRAS!

Ri muito da cena. E fiquei meditando se eu também não usava de brincadeiras para com meus aluninhos pequenos da Rui Bloem, onde lecionava. Acredito que sim... Um deles vivia me dizendo: “Já estou ficando cafuso... É muita letrinha pra me torturar!”
  
É claro que as galinhas jamais aprenderam a ler, mas o Rodrigo, sim! De tanto ensiná-las, quem se auto alfabetizou, foi ele próprio. Certa vez me disse num repente: “Mamãe, eu sei ler.” Abriu a Cartilha Caminho Suave e leu: LATA. Havia o desenho da lata e eu menosprezei a leitura. “Oras, você leu a imagem” – E ele mudou a página. Desta vez leu DADO. E novamente deduzi que a imagem é que decifrava o código. Ele se irritou e leu SAPO... A mesma repetição dos fatos. Para me provar que sabia ler não mudou de página, apenas leu uma das palavras da lição do sapo: SALADA! Oras bolas e num é que era o SA do sapo, mais o LA da lata, mais o DA do dado???? Ele ficou realmente zangado e berrou: “Eu sei ler!” E leu a página toda e depois outras páginas, enquanto muito emocionada eu o beijava de alegria... pois jamais o ensinara, apenas o deixei brincando com todo aquele material de alfabetização. Quando aos quatro anos eu o coloquei na escola Chácara Mundo Feliz ele já sabia ler e escrevia muitas palavras que aprendera sozinho por seu próprio interesse.





Isto me fez aprender a ensinar! E, principalmente a refletir sobre o que é que eu ensinava realmente quando queria ensinar algo que tinha em mente. Na verdade não é o conteúdo que importa, mas o MODO como fazemos o nosso trabalho.
Liz Rabello


2 comentários:

  1. Liz, assim como gostei muito de seu livro Intervalos, mescla de poesia e prosa, estou adorando ler estes seus ensaios. Você é boa escritora em prosa e verso. Parabéns.

    ResponderExcluir
  2. Comecei lecionar em 1989 Liz Rabello, e antes mesmo do meu primeiro dia em sala de aula, já estava em greve rss, acredite se quiser. Me lembro que tinha assinado um contrato e a diretora me disse que assim que a greve terminasse eu assumiria as aulas, e foi uma greve longa e participei de todas as assembleias, mesmo ainda não sendo professor. Li o texto que escreveu e me lembro bem dessa época, alguns amigos foram demitidos pelo Jânio Quadros por causa da greve de 1987, mas o que chamou a atenção me fez rir por aqui rsss, foi a cabeça da menina sua aluna, você vê o que é a cabeça da criança rsss, ela achou q devido ao seu choro exagerado por ter que responder processo administrativo, só podia ser porque sua mãe tinha morrido, e espalhou a notícia rssss! Ter dedicado esse primeiro texto político à minha pessoa é uma honra, você escreve muito bem, obrigado!! (Cícero Carlos)

    ResponderExcluir

Aqui você pode comentar...