sábado, 28 de fevereiro de 2015


SER MÃE É FATAL

“O que usa de engano não ficará dentro da minha casa; 
o que profere mentiras não estará firme perante os meus olhos!”
Salmos 101:7

“A barata diz que tem sete saias de filó... É mentira da barata, ela tem é uma só...” Este era o refrão predileto do meu filho mais novo. Cantava para o Ro, enquanto o colocava sentado em cima da mesa, eu em pé, para a gente poder trocar beijinhos de pertinho, abraços intermináveis e carícias com os olhos. Ele adorava sentir meus cílios tocando os dele, em sintonia com nossas piscadinhas. Quando parava de cantar para ele e lhe dizia que seu nariz já estava crescendo igualzinho ao do Pinóquio, era o momento certo para que me contasse mais um pouquinho da sua louca aventura. Aos poucos, ia costurando os fatos mais doidos de minha pior e mais fascinante experiência materna. Por Deus, como é difícil ser mãe!

E eu cutucava as memórias daquele menininho apronta quieto, esperto, amoroso e muito falante! – “Quer dizer, então, que a baratinha pegou um ônibus” – E ele continuava a história... “O home disse pra mim: Cuidado, menino, você vai cair!” Em outros momentos, frases curtas: “O onbus abria a porta e fechava, cansei, desci”. Certa vez, ao voltarmos das compras, passei embaixo do viaduto que ligava meu bairro à Vila dos Remédios, o carro atrás de um veículo, quando meu filho falou: “Mamãe, meu onbus passou daqui, tinha aquele dois ali e era verdinho”. A despeito de minhas ansiosas indagações, respostas chegavam só quando bem entendia. Uma tarde, no clube que frequentávamos, quando passávamos pela catraca para entrar na piscina, ele gritou: “É igualzinha do meu onbus!” Eu jamais o levara para passear de ônibus, embora meu filho sempre pedisse

LIBERDADE FEMININA

“O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça,  por amor do seu nome. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam. Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda. Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do SENHOR por longos dias.”

Salmos 23:1-6

O Rodrigo chegou oito anos após o meu primeiro filho. Estava trabalhando na zona leste, muito longe de casa. Precisava iniciar uma faculdade para conseguir pontos, ficar bem classificada e escolher uma sala de aula num colégio mais próximo. Fiz inscrição para exames de vestibular, no Curso de Letras, planos para finalmente realizar meus sonhos de mulher: ESTUDAR! Quando descobri que estava grávida, meu marido tentou me impedir de continuar com estas ideias. Ou uma coisa, ou outra! Não dá para ser mãe, trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Citou a palavra aborto. Sei que não era o que queria. Força de expressão para me forçar uma decisão. Esta chegou rápida, como as batidas do coraçãozinho do meu amor. Eram tão fortes que eu o sabia vivo, um ser minúsculo gritando fome de vida dentro do meu ventre! Minha resposta não poderia ser outra: “Quero tudo!”


Sou de um tempo em que a mulher não tinha vez, nem no mercado de trabalho, nem nas decisões políticas, muito menos no prazer sexual. Em nossa cultura, o centro de tudo era o homem. Foi a minha geração que conquistou esta esperança de liberdade. O advento da pílula anticoncepcional nos trouxe a possibilidade da liberação do orgasmo, muitas vezes contido pelo medo de gravidez indesejada. O mercado de trabalho abriu portas para a mulher, não sem antes fechá-las a todos, inclusive aos homens. Tanto que até hoje, mulheres ganham menos do que homens. E, atualmente, retiram deles vagas no mercado de trabalho, por pura contenção de despesas. Manifestações políticas roubadas ao tempo nos ajudaram nesta busca de liberdade. Sou de uma época em que mulheres permaneciam casadas a vida toda, insatisfeitas, porque não podiam ser rotuladas, a força de ficarem “faladas”. O divórcio trouxe a possibilidade de sonharmos de igual para igual. No entanto, esta luta feminista também nos deu a amargura da sobrecarga. Temos que nos desdobrar em duas, três, dez mulheres ao mesmo tempo para darmos conta de toda responsabilidade que abraçamos. Desde menina, eu quis ser livre. Trabalhar e estudar eram e são até hoje metas essenciais, mas ser Mãe, nos é fatal! E como é difícil, meu Deus, largar filhos nas mãos de estranhos! Ainda ouço as palavras derrapadas rua abaixo, quando saía para trabalhar e deixava meu filhinho de menos de dois anos nos braços da babá: “Mamãe, eu te amo, não demola pra voltar di casa!” Dirigia meu carro de vidros abertos para colocar uma das mãos para fora da janela e acená-la em adeus, olho cheio de lágrimas! Choro toda vez que me lembro destas cenas e aproveito cada oportunidade que ainda tenho para beijá-lo e lhe dizer que também o amo até hoje! E o amarei eternamente!

AGOSTO: UM MÊS DE DESGOSTO

“Pois quanto maior a sabedoria, maior o sofrimento;
 e quanto maior o conhecimento, maior o desgosto”.

Eclesiastes 1:18

Hoje percebo claramente o que minha intuição dizia muito antes de se tornar real alguns fatos que aconteceram depois. Perdi os meus entes amados, mais amados, sempre neste mesmo mês: marido, mãe, sogros, vovó Constança, Dindinha... Todos partiram assim, no meio da fumaça das queimadas, que mãos insanas ateiam fogo, quando a música das chuvas não limpa os céus de seus trovões costumeiros. Um ano antes de ficar viúva, eu e meu marido nos separamos. 

Foi um agosto triste para os quatro. Nós dois e as crianças sofremos demais! Minhas muletas foram os livros! O trabalho! E meus filhos, minha salvação! Aquela primavera chegou tensa. Precisava espairecer. Decidi fazer uma viagem para o litoral sul, só eu e meus meninos. Consegui reservar um cantinho. Paguei antecipadamente, com um cheque pré datado por um apartamento em Peruíbe. Mas, ironia do destino, a proprietária foi assaltada e levaram meu cheque dentro da carteira guardado. Claro que aquela senhora, após ter feito o BO na Delegacia do bairro, avisou e me pediu para trocar o cheque, além de sustar o pagamento junto ao Banco Bradesco. Uma semana depois, recebi o aviso de que o mesmo havia sido encontrado amassado no caixa de uma agência qualquer. Tentaram resgatá-lo sem sucesso. De posse do mesmo, fui à residência da proprietária do apartamento conversar com ela. Só que todos estes movimentos de peças de xadrez contrários aos meus desejos, deixaram- me desanimada e sem motivação para continuar com o jogo. Queria desfazer o compromisso da viagem. A conversa entre mim e ela ficava cada vez mais tensa. Não conseguíamos nos entender. A última vez que vi meu filho de dois aninhos e meio foi descendo as escadas atrás do irmão mais velho.

CINCO HORAS MAIS LONGAS DE MINHA VIDA

“Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele tudo fará”.

Salmos 37:5

Ajustes acertados, despedidas tensas. Desço as escadas para ir embora. O sobrado ficava no fim de um morro de uma rua movimentadíssima, onde passavam vários ônibus, que partiam em direção ao centro da capital paulista, Osasco e somente um deles (Apenas UM!) para o Mercado Municipal de Pirituba, caminho de minha casa. 

Enquanto desço, meu filho de dez anos sobe sozinho... Pergunto assustada pelo irmãozinho de dois. A resposta chega rápida e certeira: “Não sei, ele ficou com você”. Não, ele havia descido as escadas minutos antes atrás do irmão mais velho. Desespero! As horas que transcorreram foram as mais terríveis de toda minha vida!

A Rua Antonio Ayrosa, na Vila Jaguara, estava em reformas pela SABESP, canos imensos de esgoto, alinhados aos buracos enormes, a espera do término da obra, que se encontrava a meio caminho. Dirigia meu carro desesperadamente! Parava e a pé, procurava por meu filho, gritando o nome dele como louca insana. Meu único desejo era encontrá-lo dentro daqueles buracos antes que a tempestade chegasse. O céu estava tão escuro quanto o meu coração!

O primeiro milagre aconteceu. A tempestade se dissipou, antes de cair em enxurrada sobre nós, mas meu tormento, após três horas de buscas, não terminou! Fui à Delegacia mais próxima fazer um BO. O delegado me antecipou algumas possibilidades. Afinal o sobrado tinha no portão um ponto de ônibus! Fui à Estação Santa Brígida, em busca de informações. Ninguém havia visto uma criança tão pequena naquele local. Ali deixei o número fixo de minha casa, e me lembrei de que se alguma notícia boa chegasse, eu não estaria lá para atender ao telefone. Voltei à Delegacia e deixei o número dos meus vizinhos. Ao mesmo tempo, que sem pudor nenhum, chorando convulsivamente, ajoelhei-me diante de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, ali, na sala de espera daquele lugar. Durante meu encontro íntimo com Ela, um pensamento veio à tona. Precisava avisar os meus vizinhos. Pedi para fazer a ligação. Deixaram. E a notícia me alegrou: “Venha para casa imediatamente, seu filhinho está aqui!”.

Cheguei em casa louca de emoção. Enquanto o abraçava sem ainda acreditar no milagre que ocorrera, ouvia: “Onde você estava, mamãe? Por que você não me atendia?” Meu bebê tinha olhos fundos de cansaço, pezinhos com bolhas de tanto andar. Dormiu após o banho, sem nem mesmo querer se alimentar, além do meu leite materno, que insistia em não largar e que eu, maravilhada, lhe cedia!


Só depois de cuidar dele é que soube que chegara num carro azul, com cinco rapazes, que jamais conheci. Nunca pude agradecer o que fizeram. Só sei que encontraram uma criança sozinha, atravessando a rua, que quase o atropelaram. Pararam e fizeram perguntas. Meu filho sabia dizer o nome de todos na família, dizia que a mamãe era professora de Inglês no colégio que subia a rua, e que virando tudo às esquerdinhas, chegava em casa. Pelo que ouvi dos vizinhos, pelo que me contou meu anjinho, um milagre aconteceu conosco. O Rodrigo entrou em um ônibus, atrás de pessoas, e dele saiu, atrás de outras pessoas, reconheceu onde estava e voltou a pé, sozinho, para casa. Entre dezenas de linhas de ônibus, meu filhinho entrou num único, que passava de hora em hora, que o levou para minha casa!

Liz Rabello (iIn INTERVALOS, Editora Beco dos Poetas, 2013)

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