domingo, 20 de julho de 2014



VOO DE LIBERTAÇÃO


Lágrimas salgadas sobre o papel são tintas

 que secam sofrimento.


CENA  UM
ALÉM DOS OLHOS

Teus lábios não se abriam
Senão para me beijar!
Nunca foste de sorrir!
Eras sério demais...
Mas eu lia teus olhos
E tinhas a capacidade
Mágica de sorrir por eles!

 Não por acaso,
Aquele brilho
que eu em ti amava
E te sabia meu!
E te sabia alegre!
Nos olhos que só
pra mim Sorria!

Caso a tristeza
Tomasse conta
Deste brilho
Eu o sabia ler,
Como soube na tarde
Em que fostes embora
Da minha história!

Na minha memória
Nem seus lábios se movem
Num beijo tardio
Nem seus olhos piscam
Num sorriso infantil!
Apenas adormeces no sono
Eterno!

Adoro dormir. Quando bebê, dizem, era difícil encontrar-me acordada. Passei a maior parte da minha infância convidando meus irmãos para brincarem comigo “de dormir”. Certa vez, fui encontrada dentro do guarda-roupa, após ter deixado a família e todos os vizinhos desesperados com o meu sumiço. Só aprendi a dormir menos quando meus filhos nasceram. Foi então que meu sono pesado tornou-se leve e passei a acordar várias vezes durante a noite e a dormir intensamente logo após.

Estranho o que me aconteceu certa vez em que acordei sobressaltada com o telefone a tocar por volta da meia-noite. Não era ninguém que se manifestasse. Atendi e a voz do outro lado silenciou. De meia em meia hora, por quatro vezes seguidas, fui surpreendida por aquele toque silencioso e maligno. Fora de hábito, perdi o sono meio que preocupada, meio que agoniada, quando ouvi um baque surdo de um corpo pulando muro abaixo perto do meu quarto. Corri até a sala e liguei para a polícia, que veio muito rápido, cercou minha casa e vasculhou em cada canto o quintal inteiro sem nada encontrar de errado.  Morava sozinha com meus dois filhos pequenos desde a morte do meu marido e, naquela noite estávamos os três na cama de casal. Abraçada a eles, tentei adormecer de novo. Como não conseguisse, orei a Deus, o meu bom Deus, que me amparasse.

Não sei se dormi, nem mesmo sei se sonhei ou foi real. Certo é que me vi abrindo bem os olhos e vendo em volta de uma névoa uma mão a mim estendida. Reconheci de imediato, porque além dos olhos dele, o que mais o admirava eram as mãos. Perguntei de mansinho, voz baixa, tranquila: “É você, amor?” Ele de costas, voltou-se e vi, nitidamente, apenas o rosto do meu amado que em outras esferas já morava. Ouvi: “Precisava vir, quero saber como você e as crianças estão”. Fiz um sinal com a cabeça para mostrar meu filho menor que dormia do meu lado, bem pertinho. Olhei também para o meu anjinho, mas quando levantei os olhos, tudo sumiu de minha frente e me vi, consciente, sentada em minha cama, chorando e agradecendo a Deus por me ajudar a viver na solidão.


DO FUNDO DOS OLHOS

CENA DOIS

Parei para comprar um pastel. Delícia das sextas feiras. Pedi bem queimadinho, com uma crosta firme nas pontas, muita carne moída e tempero a meu gosto. Pena não ter tempo de sentar-me num daqueles bancos da pracinha e saborear meu apetitoso momento de lazer.  Fui andando depressa, de volta para o colégio. Ainda tinha algumas horas a completar minha jornada.

Olhei à frente e o vi. Uma mancha de moleque negra, sacolejando o molejo afro pela calçada. Dois lindos e alegres olhos de jabuticabas, pedintes. Perguntei: “Quer um pedaço?” – Assentiu com a cabeça afirmativamente e pegou bem depressa o pastel quase que inteiro. Ávido, despejando no pouco de carne que caía, uma alegria infinita em gratidão.  Impossível não participar daquela cena. Meus olhos adentraram para os dele. Era um menino de pouco mais de cinco ou seis anos, franzino, pernas finas.  Acariciei os seus cabelos crespos com a nítida impressão de que já nos conhecíamos!

Impossível! Há mais de vinte anos que não tenho alunos tão pequenos, mas minha mente naufragou em um passado distante demais para encontrar uma saída.

Arrisquei um comentário: “Teus olhos me lembram alguém que muito amei e com quem eu aprendi”. Só então é que notei o pai, ao lado do menino. Olhos marejados, muito feliz ao exclamar: “Professora, você me ensinou a ler e escrever na primeira série no Rui Bloem”. Somos o que amamos e aprendemos aquilo que ensinamos.


CENA TRÊS


Eram tempos de início. Crescimento profissional. Férias não eram férias, e sim, momentos para estudos. Naquele julho me inscrevi num curso de jogos teatrais. Desde o princípio minha relação com todos foi de empatia, amizade profunda. Quinze dias consecutivos de momentos felizes e criativos. No primeiro dia apresentei-me com a palavra luta, que muito tem a ver comigo.
LUTA
É ela que me decifra melhor
Meus sucessos são mais rápidos
Do que um cometa
Meus fracassos, muito estéreis
Não chegam a tomar posse de mim
Eu vou à luta!
E com ela Namoro
Brinco,
Suo,
Sofro,
Grito
Pulo!
Mas a encontro do outro lado do muro!
O que fazer?
Parece que meu mundo não tem fim!
Ainda bem, Sinal de que enquanto a luta está em chamas
A vida rola
Estou aqui!

Dois lindos olhos azuis se agitavam marejados quando terminei de ler meu poema e minha apresentação ao grupo: Elisabete, como podem me chamar. Íntimos assim, prefiro Bete. Ela também se apresentou.  Não guardei o nome, só a cor do céu que me  levava para abismos indescritíveis do olhar. Ficamos amigas, grudadas, desde o primeiro momento. Almoçávamos juntas e muitas ideias trocamos naqueles quinze dias de puro encantamento, criatividade, experiências sensoriais e psicológicas. Num dos jogos dramáticos, fui colocada ao centro e, por alguma razão, que jamais entendi, na dança gestual provocada pela música de fundo, tema do filme “Em algum Lugar do Passado” – Rachmaninoff Raphsody – eu me deitei ao chão, em posição fetal. O choro veio convulsivo em completo desequilíbrio emocional. Quando me dei conta, abri os olhos marejados e me perdi na imensidão do olhar azul celeste daquele anjo, que me abria asas ao abraço. No último dia de curso, na despedida, roda feita, tínhamos que escolher  um par para fazermos comentários do que havia sido importante em cada crescimento pessoal. Nós duas nos escolhemos com os olhos. Ficamos de mãos dadas, abraçadas, até que arrisquei uma frase: “Teus olhos me levam ao abismo de minhas memórias de infância. Penso que te conheço desde sempre!” – Ela me respondeu: “Impossível! Cheguei aqui no Brasil com oito anos de idade. Vim da França!” – Ao ouvir a palavra mágica: França, desabei a gritar: É você! É você! Simultaneamente, ela me abraçou e nós duas desabamos a chorar de alegria. Finalmente minha amiga francesa, da sala de aula do Colégio Estadual José Carlos Dias me abraçava com palavras em Português. 

Liz Rabello



VEM

Dentro dos meus olhos cabem todas as estrelas
Luzes e cores do universo em flores
danças e sons de violinos e tambores

Dentro dos meus olhos cabem todos os amores
crianças bailando e sorrindo dores
cantando em serenatas doces e sabores

Dentro dos meus olhos cabem todas as pessoas
mãos que se ajudam a atravessar estradas
caminhos tortuosos de união e luzes... Sons de paz!

Vem para dentro dos meus olhos!


CENA QUATRO

OLHOS ÚMIDOS
DAS JANELAS DO PASSADO
 “Espelho, espelho meu, quem é mais feia do que Eu?” Não, nunca me achei feia, nem mesmo bela. Qual a visão de mim mesma? Por mim? Na ausência de espelhos, numa infância muito pobre, como conseguia me saber? Penso que sempre me vi pelos olhos úmidos de emoção de meu pai. Era puro amor, encantamento! A mais bela imagem refletida. Por suas palavras doces e elogios tinha uma imagem de mim muito agradável e segura. Sentia-me com pés no chão, mas brilhante como a mais bela estrela. Ele se mostrava “satisfeito” por eu existir. Lembro-me de uma manhã de domingo. Desenhava, como de hábito, na mesa da cozinha, com meus lápis coloridos de dez centímetros cada, apenas meia dúzia, que eu cuidadosamente usava. Meus pais não podiam comprar outros. Uma visita, um amigo de meu pai. Ele me apresentou ao outro de uma forma efusiva, alegre, calorosa, dizendo o quanto estava “sastifeito” pela princesa que eu era, uma criança inteligente e criativa. Eu o corrigi: “Pai, não é assim que se fala”. Corou, nada mais falou. Quando o amigo foi embora, sentou-me em seu colo, como sempre fazia, e me disse baixinho: “Nunca mais me corrija na frente de ninguém, faça isto quando estivermos sozinhos”. Até hoje me lembro de como fiquei triste comigo mesma e do quanto me senti feia dentro dos seus olhos úmidos. Fico magoada cada vez que me lembro disto e sei que jamais amei alguém tanto quanto amei papai. Hoje sou professora de Português e a primeira lição que ensino aos meus alunos de quinta série é a de respeitar o jeitinho de falar de nossos pais, avós, amigos. Se você sabe o padrão culto da língua materna, use-o, sem constranger ou corrigir, pois palavras não nasceram para ferir ninguém.





CENA CINCO

O OLHAR DE UM CÃO

Ao longo de toda minha vida, tive, realmente, amigos fiéis, leais, amorosos. Amei e fui amada por familiares mais próximos e queridos, que partiram por conta da roda viva da vida, que nos traz para esta esfera e nos leva embora. Amo e me sinto amada pelos que aqui estão: filhos, neto, nora, tios, primos, amigos do dia a dia, reais e virtuais, inúmeros alunos, do passado e do presente! Mas nada, absolutamente nada, pode ser comparado ao olhar de um amigo canino... É puro amor, deleite, carinho, caridade, entrega sem cobranças, sem egoísmo, sem vaidades, sem rancores, abanos de rabinho com perdão, proteção, confiança, petição: “Ama-me porque eu te amo”- Eu digo. Ele não: “Amo, porque amo”. Simples assim! Penso que se o mundo canino falasse, as palavras de Cristo seriam mudadas: “Ama teu próximo mais do que a ti mesmo!”



CENA SEIS

APENAS UM BORRÃO... NÉVOA SEM CONTORNO!

Que olhos bonitos que você tem” Ela me disse quando tirei os óculos. E naquele instante seu rosto era o borrão mais lindo que eu já vi...!
(Leonardo Brasiliense, in Angústias da Juventude)

Estava correndo como sempre. Salão de beleza, cabelos arrumados, compras, levar o carro para o posto, encher o tanque de combustível, para mais tarde realizar minha viagem de costume para a chácara. Gosto de cuidar de minha aparência física, mas a mente e o coração devem estar em sintonia com memórias boas, costuradas ao sabor da imaginação e do encanto. Quero que minha vida seja repleta de atos e pensamentos bons, que transmitam aos jovens a certeza de que podemos modificar algo que nos faz sofrer! Ela me acenou a mão de longe. Chamou minha atenção com um sorriso farto, feliz! Uma linda mulher! Parecia-me familiar o brilho dos olhos, algo escondido naquele semblante que me transportava ao passado! “Sabe quem sou, professora?” – Não, não sabia de quem se tratava. Abraçou-me. “Fui sua aluna na terceira série, muito magrinha, cabelos Black Power, óculos de fundo de garrafa, míope. Sou a Josy.” Contou-me que passara por uma cirurgia recentemente e que ao se ver refletida no espelho pela primeira vez, sem o óculos, só se lembrou de mim e de minhas palavras guardadas na memória como um ato de fé e de esperança no futuro. Imediatamente, sorri! Vieram à tona todos os sentimentos bons que nos uniu, naqueles tempos inesquecíveis! Travestido de palavras novas, o Bullyng  sempre existiu. Adolescentes são muito cruéis e não deixam escapar nada para ferir amiguinhos indefesos. Era assim com Josy. Rostinho de contornos marcantes, bem idealizados por Deus, sorriso doce, inteligência farta, tudo escondido por trás daquele imenso óculos de lentes grossas! Um dia, voltando de uma de suas tarefas de monitora da sala de aula, sofreu gozações e palavras impiedosas dos coleguinhas de classe. Não tive dúvidas. Ela estava na frente deles, junto a mim. Eu lhe pedi que os olhasse bem, um a um, e me dissesse o que via. Ela balbuciou palavras entrecortadas de elogios, dizendo que só conseguia enxergar pessoas lindas. Ao mesmo tempo em que a classe lhe dizia que ela não era tão bonita assim com aquele óculos. Pedi licença e o tirei para todos verem como Josy era bela! Só que então quem passava a ser apenas um borrão enevoado eram os amiguinhos que ela anteriormente elogiara. “Estão vendo, crianças, para Josy ficar linda aos seus olhos, vocês viraram névoa sem contorno aos olhos dela. Existirá o dia em que ela vai fazer uma cirurgia e poderá vê-los e ser vista por vocês, tais como todos são: lindos!”
Liz Rabello


CENA SETE

OS OLHOS DE UM CÃO SÃO CONFIÁVEIS AOS OLHOS DE UM PEIXE...

NADA PARA MEU OLHAR

Olhe nos meus olhos
E verás a luz
por trás das pálpebras
é puro amor

Real na dor
Sutil no apelo
Pleno desejo de fome ceder
mas não envergo

podes confiar amigo
que sei conter-me
fidelidade é meu traço único
união e afeto minha cumplicidade!

Sou capaz de dividir
Somar só se for afetos
Subtrair só dores
Multiplicar amores!

Entre todos sem arestas
preconceitos nem pensar
Que eu só sei amar
Vem nada, nada para meu olhar!

Liz Rabello

2 comentários:

  1. Meu amor, está tudo em ordem nos comentários. Por isso posso te dizer te amo minha escritora favorita...

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    1. Publicando: Te amoooooooooooo, meu leitor essencial!

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