sexta-feira, 20 de outubro de 2017


POÇO FUNDO

Não te enganes
Dói teu caminhar
Pés áridos no chão deserto
Pés limpos no piso de granito
Tu, que te lambuzas de aparências
Fome, frio, angústia, morte em vida
Tu, que te lambuzas em banquetes
Mac Donald, Fast food, coca-colas
Trump, Kim Jong-un, Temer, Doria
Todos sofrerão as consequências
Um planeta que berra,
Vomita sede de água doce
Não se sustenta
Apodrece na latrina do lucro
E da incerteza

Liz Rabello

Não nos enganemos. A Somália não é tão longe. É pertinho do Shopping onde consumimos além das possibilidades que a natureza tem de se refazer. É pertinho dos pensamentos fundamentalistas, sejam eles de que espécies forem. É pertinho da desertificação que nós promovemos em nome de lucro. Estamos todos na mesma caminhada. A indiferença para com tantas vidas ceifadas é tão cruel quanto a aridez deste solo. A qualquer momento podemos descer para o chão e sentir o quanto dói este caminhar.
Leda Bossi
MINHA ALMA É UMA BORBOLETA


METAMORFOSES

Mudanças repentinas
Renovações aqui, acolá
Reviravoltas na vida
Basta uma limpeza no sótão,
No quartinho de despejo
Álbuns em fotos puídas
Recordações brotam do nada
Metamorfoses perdidas no tempo.

Jamais ter medo de arriscar
Agir em prol do que sonhamos.
Às vezes é necessário
Mudar a estratégia da vitória
Adiar desejos secretos,
Mas jamais eliminá-los de vez.
Afinal a esperança é um pó mágico
Numa gaveta discreta da alma.

A escolha é nossa
Cadeados em gavetas ou
Janelas escancaradas nos casulos
Coloridos de fiapos de esperanças
Prefiro ser equilibrista em
Metamorfoses constantes
Driblando estrelas brilhantes,
No infinito da vida!

Liz Rabello

quarta-feira, 18 de outubro de 2017


PREMONIÇÃO


Dia 11/08/2017 tive um sonho que o transformei em poesia. As mãos eram do meu ex companheiro Carloz Torres, já estamos separados há mais de um mês. Sempre tive premonição dos fatos antes de acontecerem, através de sonhos. Hoje revendo os últimos acontecimentos, relendo meus poemas, percebi que a borboleta azul só pode ser eu. Eu me encontrava enclausurada nas suas mãos fechadas e, aos poucos, estou me libertando...

Sei que foi apenas um sonho
Nitidamente eu vi as suas mãos
Fechadas como em pose de oração
Você abriu suavemente os dedos
E das palmas abertas
Voou a linda borboleta
E como mágica eram várias
Azuis, translúcidas, serenas
Plainando sem pouso em liberdade

Liz Rabello

segunda-feira, 16 de outubro de 2017


DESABAFO

Lutei com garra
Força, fé, convicção
Por minhas verdades

Lutei com amor
Lealdade, fidelidade, dedicação
Por minhas verdades

Lutei pela construção
Sem medo de consequências
Por um futuro a dois

Eis que volto ao deserto
Abandonada como trapo velho
Bonequinha de pernas quebradas
Sem jeito de seguir na caminhada
Triste, mutilada, envergonhada

Liz Rabello

quinta-feira, 12 de outubro de 2017


DESCONFORTO

Corpo caminhando pela casa
Coração implodindo por dentro
Rasgando em dor o meu peito
Alma... Ah, esta está fora de mim
Vagando em turbilhões de pensamentos!

Liz Rabello

quarta-feira, 11 de outubro de 2017


VENTO

A maior alegria do vento
Após despentear os meus cabelos
É sacolejar a lua
Transformá-la em vagalume
Pisca-pisca no infinito
Brincar desenhos em nuvens soltas
Banhar-se de perfumes do universo

Liz Rabello

sábado, 7 de outubro de 2017


GOL PRA CÁ... GOL PRA LÁ...  GOL, CAGOU!

 Ano 2009. Segundo semestre letivo. Sala dos Professores. Falávamos todos ao mesmo tempo, imitando sem querer alunos rebeldes e indisciplinados. Cogitávamos como poderíamos conhecer as obras de autores famosos em tempo recorde para o curso que fazíamos de Artes, dentro do nosso Colégio, no horário de Formação em Jornada Integral. Alguém insinuou uma viagem a Belo Horizonte. Lá estavam obras de Rodin e O Mundo Mágico de Marc Chagal, o sonho e a vida, acrescentando que a exposição estava nos últimos dias. Às pressas, uma das professoras, que por lazer fazia pacotes turísticos, se dispôs a cotar preços de passagens aéreas e hotéis. Marcada a data, escolhido o menor valor, fechamos com a GOL nossas passagens de ida e volta. A princípio somente para poucos dos vinte e três professores, o que seria sua primeira viagem aérea, o passeio prometia ser absolutamente inédito. Mas acabou sendo inesquecível para o grupo todo. Malas prontas, ansiedade total! Nossos intervalos de recreio dos alunos, lanche rápido e encontros na Jornada Integral de Formação foram permeados de conversas animadas e muitos planos para o que deveria ser um fim de semana bate volta extremamente interessante, alegre, cultural e de boa convivência. Sábado cedinho, momento do embarque. Entramos no avião, não sem antes rirmos muito de uma pessoinha divertida, que por não passar pela segurança, chegou a tirar os sapatos. Vinte e três amigos no mesmo voo é muito bom! Mudávamos de lugar a todo instante e ninguém sabia mais onde fora a sua primeira opção de escolha. No hotel, todos se arrumaram bem depressa para descer para o almoço, no centro de Belo Horizonte, com grupos de música ao vivo e dança de rua. À tarde, já dentro do ônibus previamente fretado, percorremos as ruas da cidade, percebendo que a distância do Aeroporto de Confins, tanto para o evento como para o hotel, não era nada fácil, nem curta. Demoramos demais, nos perdemos... O céu azulzinho foi escurecendo. Não era entardecer, nem a noite chegando. Apenas tempestade das piores, com vento forte, raios, trovões e enchentes. Na rua do Museu, íngreme por nascimento, era uma enxurrada só. Parecia uma cascata de água descendo veloz e arteira rua abaixo. Juro que cheguei a sentir medo.  Claro que não foi possível descermos do ônibus. Ali ficamos por mais de uma hora esperando a chuva passar. Seja por conta do tempo, seja pelo fato de que a exposição terminaria naquele fim de semana fatídico, certo é que as filas estavam imensas! Tínhamos prioridade, porque havíamos reservado a data, mas somente para entrar no Museu. Lá dentro, a concorrência para ver as belas obras era incrível! Quase todos saímos de lá, sem nada ver, sem nossa meta cumprir. Chegamos tarde ao hotel, mas queríamos uma noite diferente. Pesquisa daqui e dali, conseguimos descobrir uma casa noturna, com pista de dança, para chocalhar o esqueleto. Definido o local, acertos feitos, conseguimos uma VAN, cujo motorista ficou a nossa disposição levando o grupo em três viagens. A minha experiência foi traumatizadora. Último grupo a seguir, ele dirigia completamente desembestado. Em cada curva, deslizava meu corpo banco afora. Parecia que aquele transporte ia se despedaçar e que seus destroços ficariam pelas ruas de Belo Horizonte. Saí da VAN meio tonta, roupas fora do lugar. Sinal da cruz para me benzer. Que bom, cheguei viva.


Ocupamos uma mesa para jantar. Digo "tentar", porque a certa altura desistimos do menu e focamos no prato de entrada. Melhor encher o papo de torradas do que nada. O estranho é que bebidas chegavam bem depressa. Era pedir e tomar. Sei de minha facilidade para me embriagar. Não vacilei. Pedi um grande copo de suco de frutas. Nada de álcool. Era, portanto, a única a estar de cabeça boa ali no meio de todos. A certa altura, duas amigas me pediram para irmos ao sanitário. De longe li (Juro que li) “COMADRE”. Claro, banheiro feminino. Fui à frente e elas me seguindo. Atravessamos a pista de dança e entramos sem checar... No banheiro do “CUMPADRE”. Um homem, muito desinibido nos acompanhou de volta indicando a porta correta do banheiro certo. Não ousei mais tirar meus pés do lugar. E na primeira chance, de lá saímos sem jantar e sem dançar. Após dormirmos o sono dos justos, levantamos muito cedo. O café do hotel não era nada bom. Fomos ao mercado central comprar algo pra comer. Lugar infestado de gente e sem tempo pra pagar. Desistimos. O ônibus já estava a nossa espera. E nos levou para o XAPORI.  Uma mistura de comida caseira, com mineira à italiana. O professor de Inglês, o causador da “dor” (conforme descobrimos mais tarde) sugeriu Camarão na Moranga. Um prato delicioso e de preparo demorado. Enquanto o menu principal não chegava, comíamos tudo o que podíamos lambiscar nos pratos alheios. E a fome não baixou até nos certificarmos de qual era o sabor de todas as compotas de doces mineiros que podíamos nos servir a bel prazer. Resultado: Desta vez o atraso foi incrível. Tínhamos que estar no aeroporto uma hora antes do voo, marcado para duas horas daquele mesmo domingo. Confins é extremamente distante do XAPURI. Por mais que o motorista do ônibus fretado corresse, só conseguiu chegar a tempo de nos mostrar o nosso avião na pista. Quando demos entrada no aeroporto, correndo e gritando para esperarem, pois ainda faltava meia hora para o embarque, o segurança imediatamente fechou os guichês. Ninguém nos atendeu! Disseram mais tarde, em audiência, no processo que abrimos, que o avião foi embora vazio, com as vinte e três poltronas abandonadas! Na verdade, uma testemunha afirmou que a aeronave decolou lotada, sem nenhum lugar sem uso, numa evidente constatação de overbooking. Como poderíamos voltar para São Paulo? Outro voo para Cumbica, Congonhas ou mesmo Viracopos, só ocorreria nos dias posteriores e, mesmo assim, com pouquíssimas vagas, sem contemplar a todos. De malas pesadas às costas, caminhávamos de um lado para o outro. Confins fica nos “confins do mundo”, não havia nada por perto, apenas alguns lugares dentro do aeroporto, onde nos serviam lanches minúsculos a preços ardidos. Conversa daqui conversa dali, localizamos um micro-ônibus, cujo motorista chegava de São Paulo e faria a viagem de volta, desde que fôssemos junto com ele até sua casa, não muito próxima do aeroporto. Claro que aceitamos. Até hoje não sabemos de onde desceu dos céus aquele anjo, que nos acolheu com tanto carinho e competência a um preço bem modesto, e que ainda ofereceu seu lar para que utilizássemos banheiros, em filas indianas. Nosso grupo não perdeu o bom humor e a cada parada durante a madrugada, havia o momento da aterrissagem e decolagem, onde a “auto moça” imitava a “aeromoça” com direito a falas em Português culto, que imediatamente era transcrito em Inglês, por nosso mestre. Muitas piadas e brincadeiras, tanto que fiquei rouca por rir demais. O melhor momento foi atravessar o aeroporto de Cumbica a pé, malas a mão, pois o micro-ônibus nos levou até lá, já que nossos carros estavam estacionados naquele aeroporto nos esperando. Com certeza, esta foi a única vez que passageiros da GOL desceram de ônibus com mais de vinte e quatro horas de atraso num aeroporto internacional. Que mico, meu Deus! O pior mesmo foi a greve sem motivo na segunda feira, quando TODOS os professores faltaram e não havia ninguém para dar aulas às crianças!  Menos de um mês e a exposição veio para São Paulo. Já não havia sido fácil explicar aos maridos ciumentos como é que um grupo de vinte e três pessoas conseguiu perder o avião, quanto mais que tínhamos que ir ao Museu de Arte Moderna em São Paulo ver Rodin e Chagal, desta vez pra valer! A fim de nos garantir fretamos um ônibus de verdade!

Liz Rabello (In INTERVALOS, Editora Beco dos Poetas, 2012)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017


LUTO

Estou em luto
Por sonhos castrados
Objetos roubados
Por quem sai da minha vida
Sem sequer olhar pra trás
Luto contra a impotência do luto
Sem futuro, sem presente
Sem perspectivas a implorar
Morta por dentro
Vivendo a cada dia
Como quem precisa um vício superar

Liz Rabello

domingo, 1 de outubro de 2017


PEDAÇOS AO VENTO

Paredes nuas
Porta-retratos quebrados
Fotografias rasgadas
Eis que no latão de lixo jogadas
Saco furado
Pedaços voando ao vento
E eu, bruxa,
Varrendo a rua
De minha dor e sofrimento

Liz Rabello

sábado, 30 de setembro de 2017



Para onde te levam as verdades
Que você tanto acredita
E que não ousa retrucar?
Não percebe que são elas
Os mais ricos grilhões,
que o escravizam a uma vida de dor?
Liz Rabello